A compra de imóveis por dirigentes ligados à Santa Casa de Campo Grande passou a integrar a investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul no âmbito da Operação Antidotum. Escrituras reunidas pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) mostram negócios envolvendo a presidente da instituição, Alir Terra Lima, e o advogado Paulo da Cruz Duarte, sócio dela em escritório de advocacia e proprietário de empresas que mantiveram contratos com a operadora Santa Casa Saúde.
Entre os documentos está a escritura de uma casa adquirida por Alir em 24 de janeiro de 2025, na Rua João Pessoa, em Campo Grande, pelo valor declarado de R$ 400 mil. Conforme o documento cartorário citado na investigação, o pagamento teria sido feito “no ato, em espécie da moeda corrente nacional”.
Outro negócio analisado pelo Ministério Público envolve Paulo Duarte. Em 20 de junho de 2023, ele e a esposa adquiriram um apartamento no Edifício Pernambuco por R$ 350 mil. Na escritura, o valor aparece como “integralmente pago em moeda corrente nacional”.
As duas aquisições fazem parte de um conjunto de quatro escrituras anexadas pela promotoria ao pedido judicial que resultou na Operação Antidotum, deflagrada na sexta-feira (11).
Na avaliação do Gecoc, os documentos apontam uma “evolução patrimonial relevante e contemporânea à estruturação do núcleo empresarial e às contratações” envolvendo empresas de Paulo Duarte e a Santa Casa Saúde.
Segundo a investigação, empresas ligadas ao advogado receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões da operadora somente em 2025.
Apesar de destacar a evolução patrimonial, o Ministério Público ressalva que os documentos ainda estão sendo analisados. Para os investigadores, será necessário cruzar movimentações bancárias pessoais, contas empresariais e os pagamentos realizados na compra dos imóveis para tentar identificar a origem dos recursos.
Até o momento, a promotoria não afirma que o dinheiro utilizado nas aquisições tenha origem ilícita.
Alir Terra Lima está presa preventivamente no âmbito da investigação, enquanto Paulo Duarte foi afastado das funções. Até agora, ambos são investigados e não houve denúncia criminal apresentada contra eles em relação aos fatos descritos.
Compras e contratos
O Ministério Público também chama a atenção para a proximidade entre algumas aquisições e o período de expansão dos negócios de Paulo Duarte.
Em 1º de fevereiro de 2023, mês em que Alir assumiu a presidência da Santa Casa, foi constituída a Duarte Soluções Creditícias Ltda., também mencionada nos autos como Duarte Soluções em Saúde.
Pouco mais de quatro meses depois, em 20 de junho, Paulo Duarte comprou o apartamento no Edifício Pernambuco por R$ 350 mil. Já em 1º de agosto daquele ano, a empresa firmou o primeiro contrato identificado pelos investigadores com a Santa Casa Saúde.
Outra aquisição ocorreu em 20 de março de 2025. Paulo Duarte comprou um apartamento no Edifício Tom Jobim, na região do Santa Fé, próximo ao Shopping Campo Grande, pelo valor declarado de R$ 670 mil.
O pagamento teria sido dividido em 12 parcelas mensais de R$ 50 mil, com início em 30 de abril de 2025, além de duas parcelas finais previstas para abril e maio de 2026.
De acordo com o Ministério Público, o negócio coincidiu com o período em que a Duarte Soluções passou a receber valores mais elevados da Santa Casa Saúde.
Documentos do Conselho Fiscal mencionados na investigação apontam pagamentos mensais de R$ 557 mil à empresa por serviços descritos como “execução técnica para abertura da filial de Dourados”. Teriam sido dez parcelas, somando R$ 5,57 milhões até dezembro.
O MP afirma ainda que o contrato relacionado a esses pagamentos não teria sido apresentado ao Conselho Fiscal.
“Essa segunda aquisição ocorreu no mesmo período em que as empresas de Paulo Duarte passaram a receber os pagamentos mais expressivos da Santa Casa Saúde”, registra a representação apresentada pela promotoria.
Imóveis de Alir
No caso de Alir Terra Lima, o Ministério Público compara duas aquisições realizadas em períodos diferentes.
Em julho de 2021, antes de chegar à presidência da Santa Casa, ela adquiriu um imóvel residencial na Rua Luciana, no Jardim Autonomista, por R$ 450 mil.
Segundo a escritura, o pagamento foi feito por meio de três transferências bancárias, nos valores de R$ 22,5 mil, R$ 31,5 mil e R$ 396 mil.
Já na aquisição realizada em janeiro de 2025, referente à casa de R$ 400 mil na Rua João Pessoa, no bairro Monte Carlo, o documento informa que o pagamento ocorreu em espécie.
Naquele momento, Alir estava havia quase dois anos no comando da Santa Casa. A investigação também menciona que ela havia indicado Beatriz Lemes da Silva para administrar a operadora de saúde.
O Ministério Público ainda aponta que Alir era proprietária da sala 403 do edifício Evidence Office Prime, endereço utilizado por sete empresas relacionadas a Paulo Duarte que prestaram serviços ao plano de saúde.
Dados obtidos por meio de quebra de sigilo bancário indicariam, segundo a representação, que Alir recebeu mais de R$ 200 mil diretamente de Paulo Duarte.
Os investigadores também relataram a existência de “numerosos depósitos sem identificação de origem” na conta da presidente da Santa Casa e sustentam que parte desses valores não teria sido informada em sua declaração de Imposto de Renda.
A representação, porém, não detalha os valores individualizados nem as datas de todos esses depósitos.
Patrimônio gerava comentários dentro do hospital
A evolução patrimonial de integrantes da administração da Santa Casa já teria provocado questionamentos internos antes da deflagração da operação.
Um áudio de fevereiro deste ano, recuperado do telefone do então diretor administrativo Alessandro Dias Junqueira, registra uma conversa sobre um veículo avaliado em aproximadamente R$ 350 mil que teria sido visto na garagem da instituição.
Segundo o diálogo reproduzido na investigação, o presidente do Conselho Fiscal, Antonio Urban Filho, teria questionado a origem dos recursos usados para a compra do automóvel, que pertenceria ao diretor financeiro Rinaldo Hakme Romano.
No mesmo áudio, Alessandro comenta que a situação estava provocando repercussão dentro do hospital e menciona ainda conversas sobre a aquisição de um apartamento, sem identificar a quem o imóvel pertenceria.
Para o Ministério Público, o conteúdo demonstra que integrantes da administração tinham conhecimento de que a evolução patrimonial dos dirigentes estava sendo observada internamente.
A promotoria sustenta que esse contexto também justifica aprofundar a análise das movimentações financeiras de outros investigados.
Rastreamento patrimonial
Ao autorizar medidas da Operação Antidotum, a juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, não determinou o bloqueio dos imóveis mencionados na investigação.
A magistrada, entretanto, destacou na decisão que a ampliação patrimonial de Alir e Paulo Duarte teria ocorrido paralelamente às contratações e aos pagamentos feitos por empresas vinculadas à Santa Casa Saúde.
Entre os objetivos das buscas e apreensões autorizadas pela Justiça está justamente o rastreamento patrimonial dos investigados.
Na análise do conjunto de indícios, a decisão também menciona regras de comunicação de movimentações financeiras ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A magistrada registrou que operações em espécie a partir de R$ 50 mil estão sujeitas a mecanismos de comunicação e que a repetição de operações em valores próximos desse limite pode ser considerada relevante para investigação.
Essa observação, conforme a decisão, está relacionada principalmente aos saques identificados nas contas da empresa Redvalue, outra frente de apuração dentro da Operação Antidotum.
