As campanhas eleitorais de 2026 em Mato Grosso do Sul consolidam uma transformação na forma de comunicação entre candidatos e eleitores. Embora o horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio continue desempenhando papel relevante, principalmente entre o público mais velho, as redes sociais passaram a ocupar posição central na estratégia dos pré-candidatos.
Plataformas como Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, WhatsApp e Telegram permitem contato direto com o eleitor, sem a mediação dos meios tradicionais. A rapidez na divulgação de conteúdos, a possibilidade de segmentar públicos específicos e o baixo custo de produção fizeram do ambiente digital o principal espaço de disputa política.
No Estado, pré-candidatos ao governo, ao Senado e aos cargos proporcionais intensificaram a publicação de vídeos curtos, transmissões ao vivo e conteúdos voltados à interação com os seguidores. Diferentemente da propaganda eleitoral, limitada ao período oficial da campanha, as redes sociais garantem presença permanente junto ao eleitorado.
Essa mudança acompanha a evolução do perfil dos eleitores. Os mais jovens consomem informações majoritariamente pelas plataformas digitais, enquanto aplicativos como WhatsApp e Facebook também passaram a ser importantes fontes de informação política para pessoas acima dos 40 anos, reduzindo a influência exclusiva que a televisão exerceu durante décadas.
Apesar do crescimento das plataformas digitais, especialistas destacam que a televisão continua sendo estratégica, principalmente nas eleições majoritárias. O horário eleitoral gratuito ainda oferece amplo alcance, especialmente entre candidatos menos conhecidos, além de proporcionar um espaço estruturado para apresentação de propostas e programas de governo.
Em municípios do interior, onde a TV aberta mantém grande audiência, o horário eleitoral continua sendo considerado uma ferramenta importante para fortalecer a imagem dos candidatos durante a campanha oficial.
O avanço das redes sociais também ampliou os desafios para a Justiça Eleitoral. A disseminação de notícias falsas, vídeos manipulados, perfis falsos e conteúdos produzidos com inteligência artificial tornou mais complexa a fiscalização do ambiente digital. Neste ano, a legislação exige que conteúdos criados com IA sejam identificados, enquanto o uso de deepfakes permanece proibido.
Outro ponto de atenção envolve a atuação dos influenciadores digitais. Eles podem manifestar apoio político de forma espontânea, mas a legislação proíbe qualquer remuneração para promover candidatos ou impulsionar conteúdos eleitorais, prática permitida apenas aos próprios candidatos, partidos e federações, dentro das regras eleitorais.
Redes e TV cumprem funções diferentes
Para o cientista político Daniel Miranda, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), as redes sociais e o horário eleitoral não disputam espaço, mas exercem papéis complementares.
Segundo ele, a principal diferença está no tempo de exposição. Enquanto a propaganda na TV e no rádio alcança o eleitor apenas durante a campanha oficial, as redes sociais permanecem disponíveis diariamente, permitindo contato constante entre candidatos e eleitores.
Miranda avalia que cada publicação nas plataformas digitais tende a produzir impacto menor de forma isolada, mas o efeito acumulado ao longo do tempo fortalece a comunicação. Já o horário eleitoral costuma gerar maior impacto imediato por ser um conteúdo oficial, apresentado em um momento de maior atenção do eleitor.
Na avaliação do sociólogo Ricardo Luiz Cruz, também professor da UFMS, televisão e redes sociais continuam exercendo funções complementares.
Segundo ele, a comunicação política acompanha a predominância da imagem na sociedade contemporânea, utilizando diferentes plataformas para dialogar com o eleitorado.
Popularidade digital não garante votos
Para o diretor do Instituto de Pesquisas Resultado (IPR), Aruaque Fressato Barbosa, o crescimento da presença dos pré-candidatos nas redes sociais amplia a visibilidade, mas não assegura desempenho eleitoral.
Ele observa que existe diferença entre popularidade digital e intenção de voto. O alcance das publicações pode ficar restrito a determinados grupos e nem sempre se transforma em apoio nas urnas.
Barbosa destaca que indicadores como compartilhamentos, alcance, visualizações e o sentimento das interações são mais relevantes do que apenas o número de seguidores.
Na avaliação do pesquisador, a presença nas redes sociais tornou-se indispensável nas campanhas modernas, mas o sucesso eleitoral depende da combinação entre comunicação digital, trabalho de campo, articulação política e capacidade de converter visibilidade em votos.
Com cerca de 2 milhões de eleitores aptos a votar em Mato Grosso do Sul, a expectativa é de que as campanhas mantenham investimentos tanto na propaganda tradicional quanto nas plataformas digitais. Enquanto a televisão continuará sendo utilizada para apresentar institucionalmente os candidatos, as redes sociais deverão concentrar a mobilização de apoiadores, a divulgação de agendas e as respostas rápidas ao debate político diário.
