O empresário Heyder Bartz, único investigado que permanece foragido após a deflagração da Operação Gutenberg, é apontado pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) como um dos principais integrantes do suposto esquema de corrupção envolvendo contratos para aquisição de livros paradidáticos por prefeituras de Mato Grosso do Sul.
De acordo com o Procedimento Investigatório Criminal (PIC), Heyder integra o núcleo considerado responsável pelas decisões estratégicas e financeiras da Editora Avante ao lado da dentista Rossana Paroschi Jafar e do empresário Francisco Anizio dos Santos. Segundo a investigação, o grupo teria comandado um esquema que utilizava contratos públicos para comercialização de livros mediante o pagamento de vantagens indevidas.
Proprietário da empresa Superconteúdo Digital, voltada à produção editorial e marketing, Heyder é descrito pelos investigadores como peça fundamental para o funcionamento da organização. O relatório afirma que sua atuação, assim como a de Francisco Anizio, foi decisiva para a execução do suposto esquema criminoso.
As investigações apontam que a participação do empresário ficou evidenciada em mensagens obtidas após a quebra do sigilo telemático dos investigados. Em um dos episódios citados, ocorrido em 14 de fevereiro de 2023, a Editora Avante recebeu R$ 459.286 da Prefeitura de Ladário em duas transferências bancárias. No dia seguinte, conversas no grupo de WhatsApp “Editora Avante (Osasco)” mostram um contato identificado como “Heyder” orientando Rhayane Souza Fanaia, proprietária formal da editora, sobre pagamentos relacionados ao contrato firmado com o município.
Transferências para a Superconteúdo
O Gaeco também identificou que a Superconteúdo Digital recebeu R$ 455.593,05 da Editora Avante durante o período analisado. Conforme o relatório, a empresa de Heyder figura entre as maiores beneficiárias das transferências realizadas pela editora, ao lado de Rossana Paroschi Jafar.
Um dos exemplos destacados ocorreu após a Prefeitura de Bonito efetuar o pagamento de R$ 818.958,50 à Avante, em dezembro de 2022. Segundo a investigação, logo após a entrada dos recursos, foi encaminhada uma relação de pagamentos que previa repasses de R$ 47.103,34 para Rossana, R$ 75.661,27 para a Superconteúdo Digital e outros R$ 459,90 para uma segunda conta da mesma empresa.
Os promotores ressaltam, no entanto, que o procedimento não afirma que todas as transferências destinadas à Superconteúdo tenham origem ilícita. A suspeita decorre do conjunto de elementos reunidos durante a investigação, incluindo a proximidade temporal entre os pagamentos públicos e os repasses, as conversas internas, a influência de pessoas que não figuravam oficialmente na administração da Editora Avante e a repetição desse padrão em diferentes contratos.
Atuação além da prestação de serviços
Na avaliação do Gaeco, Heyder Bartz exercia um papel mais amplo do que o de fornecedor de serviços editoriais ou de marketing. Os investigadores sustentam que ele participava da gestão informal da Editora Avante, orientava integrantes da empresa, influenciava a definição de pagamentos e recebia parte dos recursos movimentados pela organização por meio da Superconteúdo Digital.
O pedido de prisão preventiva encaminhado à Justiça afirma ainda que a análise das movimentações bancárias reforçou a distribuição de valores entre integrantes do grupo, citando nominalmente Rhayane Souza Fanaia, Rossana Paroschi Jafar e Heyder Bartz. A decisão judicial também autorizou o aprofundamento das investigações mediante a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático dos investigados.
Em nota, a defesa de Heyder Bartz afirmou que possui “plena convicção de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos no decorrer do processo”. A advogada Beatriz Navarini sustenta que seu cliente “jamais ocupou posição de liderança em qualquer organização criminosa, tampouco participou de decisões relacionadas à celebração dos contratos, tendo atuado exclusivamente na execução técnica dos projetos posteriormente contratados”, argumento que, segundo ela, será demonstrado durante a instrução processual.
