A perda do mandato de deputado estadual de Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk (PL), representou um ponto de virada nas investigações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul sobre a atuação de um grupo apontado como remanescente do jogo do bicho no Estado. Sem a prerrogativa do cargo, promotores conseguiram avançar com o pedido de prisão preventiva do parlamentar, investigado por suposta liderança de organização criminosa.
O desfecho teve origem em um processo eleitoral sem relação direta com as investigações sobre a contravenção. A cassação da candidatura de Raquelle Lisboa Alves Souza, ex-Raquelle Trutis, por irregularidades envolvendo recursos do fundo eleitoral, levou à recontagem dos votos das eleições de 2022. Com isso, o PL perdeu uma cadeira na Assembleia Legislativa, ocupada por Neno Razuk, que deixou o cargo e foi substituído pelo suplente João César Matogrosso (PSDB).
Segundo as investigações, a saída do parlamentar eliminou o principal obstáculo jurídico para medidas cautelares mais rigorosas. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) reuniu elementos que apontariam para a continuidade das atividades da organização, incluindo movimentações financeiras por meio de terceiros, utilização de empresas ligadas à família para receber recursos em espécie e manutenção de bancas de apostas clandestinas em funcionamento em Dourados.
A apuração também relaciona o grupo à tentativa de influenciar a futura exploração da loteria estadual, por meio de ações judiciais envolvendo empresas interessadas na licitação. Conforme o material investigativo, um comprovante de pagamento anexado a um processo judicial indicaria a participação de integrantes da família Razuk em uma das demandas.
A atuação do grupo já havia sido alvo da Operação Successione, deflagrada em 2023. Em dezembro de 2025, Neno Razuk foi condenado em primeira instância a mais de 15 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa, roubo e exploração do jogo do bicho, mas permanecia em liberdade enquanto recorria da decisão.
Com o fim do mandato, o Ministério Público protocolou, em junho deste ano, o pedido de prisão preventiva. A ordem judicial foi expedida no início de julho com fundamento na necessidade de impedir a continuidade das atividades criminosas e evitar a reiteração dos delitos.
As equipes do Gaeco tentaram cumprir o mandado durante operações realizadas em Dourados e Campo Grande, mas não localizaram o ex-deputado nos endereços visitados. Conforme os investigadores, ele não foi encontrado nem na residência da família, em Dourados, nem em um imóvel localizado em condomínio da Capital, que teria sido vendido meses antes da perda do mandato.
