A Santa Casa de Campo Grande encerrou o ano de 2025 com déficit de R$ 124,582 milhões, o equivalente a um prejuízo médio de R$ 341 mil por dia. Os dados constam no balanço anual divulgado nesta segunda-feira (6), que também revela um cenário de elevado endividamento e levanta dúvidas sobre a capacidade de continuidade das atividades da instituição.
De acordo com o documento, o hospital afirma ter R$ 714,259 milhões a receber dos governos municipal, estadual e federal. A maior parte desse montante é resultado de ações judiciais relacionadas ao reequilíbrio financeiro de contratos e ao pagamento de recursos referentes ao período da pandemia de Covid-19.
Entre os valores reivindicados, a Santa Casa informa ter obtido decisão favorável para receber R$ 275,593 milhões por perdas relacionadas ao reequilíbrio financeiro entre outubro de 2011 e maio de 2018. Segundo a direção do hospital, com a atualização monetária até dezembro de 2025, esse crédito alcança R$ 667,87 milhões.
Além disso, outra ação judicial reconheceu o direito ao recebimento de R$ 46,381 milhões referentes a recursos previstos em lei federal editada durante a pandemia. Conforme o hospital, a legislação determinava o pagamento integral dos tetos de produção, mas os repasses teriam sido realizados com base em médias históricas.
Enquanto aguarda o recebimento desses recursos, a instituição segue recorrendo a empréstimos bancários para manter as operações. O balanço mostra que as operações de crédito somam mais de R$ 261,7 milhões. As taxas de juros variam entre 0,55% e 1,85% ao mês.
Entre os financiamentos, três contratos firmados com o Banco Daycoval totalizam R$ 17 milhões, com juros entre 1,56% e 1,85% ao mês. Apenas essas operações representam um custo superior a R$ 250 mil mensais em juros. A maior dívida é com a Caixa Econômica Federal, que emprestou R$ 248 milhões em janeiro de 2024, com taxa de 1,36% ao mês. Já o menor custo financeiro está em um empréstimo de R$ 10 milhões contratado junto ao Sicoob, em 2019, com juros de 0,55% ao mês.
O balanço também mostra que o déficit acumulado da Santa Casa supera R$ 544 milhões. Somente os débitos tributários parcelados somam R$ 189,817 milhões.
No parecer que acompanha as demonstrações financeiras, os auditores independentes chamam atenção para a situação patrimonial da instituição. Segundo o relatório, em 31 de dezembro de 2025 o passivo circulante superava o ativo circulante em R$ 227,215 milhões, enquanto o patrimônio líquido era negativo em R$ 639,469 milhões.
Os auditores afirmam que esse cenário representa uma incerteza relevante e pode levantar dúvidas sobre a capacidade de continuidade operacional da Santa Casa. Na prática, as obrigações de curto prazo são superiores aos recursos disponíveis para quitá-las, aumentando o risco financeiro da instituição.
O documento ainda aponta que, mesmo com a venda de todo o patrimônio do hospital, ainda permaneceria um passivo de aproximadamente R$ 640 milhões.
Apesar do alerta, os responsáveis pela auditoria ressaltam que não cabe a eles decidir sobre a continuidade das atividades da entidade. Segundo o parecer, essa avaliação é de responsabilidade da administração da Santa Casa, que deve analisar as condições de manter as operações e divulgar eventuais riscos relacionados à continuidade da instituição.
