O Consórcio Guaicurus atribuiu o acúmulo de mais de R$ 20 milhões em dívidas à redução do número de passageiros, impulsionada pela pandemia da Covid-19 e pelo crescimento de meios alternativos de transporte, como aplicativos de mobilidade e bicicletas. A manifestação foi feita por meio de nota divulgada após a apresentação do relatório preliminar elaborado pelos interventores responsáveis pela administração temporária do sistema de transporte coletivo de Campo Grande.
Embora reconheça as conclusões iniciais do documento, o grupo empresarial reafirma que as dificuldades financeiras decorrem, principalmente, do desequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão. Segundo o Consórcio, a queda da demanda e a ausência de medidas para recompor o equilíbrio contratual comprometeram a sustentabilidade do serviço.
“As condições constatadas pelos interventores são consequência da falta de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato”, argumentaram as empresas na nota.
Além da redução do número de usuários, o Consórcio sustenta que a expansão dos aplicativos de transporte e de outros modais agravou o cenário enfrentado pelo sistema de ônibus da Capital. No entanto, especialistas avaliam que a diversificação dos meios de transporte pode representar um estímulo à melhoria da qualidade do serviço prestado à população.
A doutora em Geografia Humana e especialista em desenvolvimento urbano, Maria Lúcia Torrecilha, já defendeu que a existência de alternativas ao transporte coletivo aumenta a competitividade e pressiona as concessionárias a oferecerem um serviço mais eficiente. Segundo ela, a predominância dos ônibus como único sistema coletivo na cidade contribuiu para reduzir a pressão por melhorias ao longo dos anos, enquanto muitos usuários migraram para os aplicativos em busca de maior conforto e agilidade, sempre que as condições financeiras permitiram.
Na nota, o Consórcio também afirma que, apesar das dificuldades financeiras, manteve as condições de segurança da frota, sustentando que os veículos possuem laudos emitidos por empresas credenciadas pelo Inmetro e pelo Detran-MS. As empresas ainda apontam que a demora na implantação de corredores exclusivos e de novos terminais de ônibus prejudicou o desempenho operacional do sistema.
Segundo o grupo, a velocidade média dos ônibus permanece em torno de 17 km/h, fator que compromete a qualidade do serviço, afasta passageiros e aumenta os custos operacionais da concessionária.
Entretanto, o relatório preliminar produzido durante a intervenção apresenta um diagnóstico diferente. O documento identifica falhas na gestão operacional, apontando a utilização de sistemas administrativos considerados ultrapassados, situação que compromete o controle interno e reduz a eficiência econômica da operação.
Os interventores também destacaram que parte da frota encontra-se envelhecida, exigindo planejamento para a renovação dos veículos, além de apontarem indícios de irregularidades fiscais e contratuais que, segundo as primeiras apurações, se arrastam há mais de uma década.
De acordo com o advogado responsável pela intervenção, Aléxandro de Oliveira, há evidências de que o Consórcio acumula atrasos no pagamento de tributos desde 2014. Apesar disso, ele ressalta que o levantamento ainda está em fase inicial e que será necessário aprofundar a análise documental para confirmar a extensão dos descumprimentos contratuais.
