MPE aponta que ex-secretário definia valores para favorecer construtora com histórico de má qualidade
O ex-secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, Rudi Fiorese, atuava diretamente na definição de medições, empenhos e quantias pagas à Construtora Rial, empresa apontada por relatórios como prestadora de serviços de baixíssima qualidade. A denúncia faz parte do pedido de prisão preventiva apresentado pelo Ministério Público Estadual (MPE) contra oito suspeitos de integrar uma organização criminosa.
Fiorese permaneceu no cargo municipal até janeiro de 2023, quando migrou para a Secretaria Estadual de Infraestrutura. Até recentemente, exercia a função de diretor-presidente da Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos). Ele foi exonerado pelo governo do Estado logo após ser preso na Operação Buraco Sem Fim, deflagrada no último dia 12.
Mesmo sem apresentar a qualidade exigida nos contratos de manutenção e tapa-buracos, a Rial obteve aditivos milionários. Em determinados casos, os repasses superaram em até 402% as previsões iniciais das licitações.
Nas vistorias da região do Imbirussu, por exemplo, o montante inicial estimado em R$ 5,4 milhões saltou para um pagamento final de R$ 27,1 milhões. Comportamento semelhante ocorreu na região do Anhanduizinho, onde o contrato subiu de R$ 10,2 milhões para R$ 46,98 milhões — uma alta de 356%.
Fraude nas planilhas de medição
Segundo as investigações do MPE, Fiorese e o então superintendente de Serviços Públicos da Sisep, Mehdi Talayeh, estipulavam os pagamentos com base em acordos prévios com os empreiteiros, ignorando o volume real de reparos executados nas vias de Campo Grande. Enquanto as vias públicas se deterioravam, funcionários da pasta se dedicavam a forjar relatórios técnicos.
“Constatou-se que Rudi participava ativamente na definição das medições, empenhos e valores a serem pagos às empreiteiras envolvidas no esquema. Ele estabelecia contato direto com outros envolvidos, validando os montantes a serem lançados nas planilhas de controle”, detalha a promotoria com base em mensagens extraídas de celulares dos investigados.
A estrutura contava ainda com o servidor Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula para realizar as alterações fraudulentas, e com Fernando de Souza Oliveira, que ocupava o cargo de Gerente de Controle de Medições e viabilizava as alterações no sistema.
Trocas de mensagens revelam que Erik consultava Mehdi para saber qual quantia deveria ser repassada e passava a “fabricar” os dados de engenharia. Em um dos trechos, o ex-secretário Rudi Fiorese orienta a manutenção de valores superfaturados nas planilhas para facilitar o trâmite interno.
Falta de estrutura e serviços precários
A apuração do MPE reúne depoimentos técnicos de engenheiros que confirmam a incapacidade operacional da Construtora Rial. Relatos de servidores da própria secretaria classificavam os trabalhos de tapa-buracos como péssimos e de extrema precariedade. Diálogos interceptados revelam que o maquinário e o pessoal da empresa eram insuficientes, resultando em intervenções qualificadas pelos próprios investigados como um “serviço de porco”.
As prisões preventivas dos ex-servidores e dos empresários Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa e Antônio Jacques Pedrosa Júnior foram determinadas pela juíza May Melke Penteado Amaral Siravegna, do Núcleo de Garantias.
