Uma investigação conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) detalha um esquema de superfaturamento em contratos de manutenção viária na capital sul-mato-grossense. Segundo as análises técnicas que fundamentam a Operação Buraco Sem Fim, a prefeitura municipal efetuou pagamentos por volumes de obras drasticamente superiores ao que foi, de fato, executado nas ruas.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) identificou uma discrepância alarmante em um contrato de julho de 2022. Enquanto a medição oficial registrava a execução de 4.860 metros cúbicos de cascalhamento — o equivalente a cerca de 8 a 10 quilômetros de vias —, relatórios operacionais de transporte e diários de obra indicavam a aplicação de apenas 156 a 180 metros cúbicos (cerca de 300 metros de extensão). Na prática, o trabalho realizado correspondeu a apenas 3,7% do valor faturado.
Além da falta de execução física, os investigadores apontam outras irregularidades:
- Serviços inexistentes: Na Região do Bandeira, a falta de itens previstos no projeto básico poderia ter poupado mais de R$ 780 mil aos cofres públicos.
- Aditivos expressivos: Contratos tiveram saltos financeiros considerados injustificados. Um deles, na Região do Segredo, subiu de R$ 4,2 milhões para R$ 21,3 milhões. Outro, no Anhanduizinho, saltou de R$ 10,2 milhões para R$ 46,9 milhões.
- Distâncias infladas: Houve um aumento sem justificativa técnica nas Distâncias Médias de Transporte (DMTs), o que eleva artificialmente o custo logístico de caminhões e combustível, gerando um prejuízo estimado em R$ 1,6 milhão.
De acordo com o Gecoc, a Construtora Rial acumulou mais de R$ 113 milhões em contratos e aditivos que não possuem “lastro na precária realidade das obras”. A investigação aponta que o empresário Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, o “Peteca”, atuaria como sócio oculto e tomador de decisões da empresa, que está em nome de seu filho.
O esquema contaria com a participação de servidores da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), responsáveis por agilizar medições e liberações administrativas fictícias. O ex-secretário da pasta, Rudi Fiorese, também é citado por assinar os contratos sob suspeita.
A defesa de Rudi Fiorese argumenta que a operação se baseia em fatos já apurados em investigações anteriores (Operação Cascalhos de Areia) e que não há elementos novos que justifiquem as medidas restritivas.
A Prefeitura Municipal informou que aguarda acesso integral aos autos, que correm em segredo de justiça, e ressaltou que o foco é manter a prestação de serviços à população, reservando manifestações específicas para o âmbito judicial. A defesa dos empresários citados não foi localizada para comentar o teor do documento.
