O avanço acelerado das apreensões de canetas emagrecedoras em Mato Grosso do Sul escancara a expansão de um mercado ilegal que cresce à margem da fiscalização sanitária. Em apenas quatro meses, o volume interceptado nas rodovias federais já se aproxima de todo o registrado ao longo de 2025.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que, entre janeiro e abril de 2026, foram retirados de circulação 4.866 medicamentos. No ano passado, foram 5.281 unidades apreendidas entre junho e dezembro — período em que teve início o aumento da demanda por esses produtos.
O ritmo das apreensões indica não apenas maior circulação, mas também o fortalecimento de rotas de entrada irregular no Estado.
Um dos casos mais recentes ocorreu no dia 26 de abril, em Coxim, quando um médico foi flagrado transportando 70 ampolas de medicamentos injetáveis. Ele admitiu ter comprado os produtos no exterior com a intenção de revendê-los no Brasil, à margem das regras sanitárias.
Risco invisível ao consumidor
Apesar da promessa de emagrecimento rápido, especialistas alertam que o uso dessas substâncias pode representar riscos significativos à saúde, especialmente quando não há controle sobre origem e armazenamento.
A endocrinologista Bianca Paraguassu explica que esses medicamentos exigem condições rigorosas de conservação.
“Eles precisam ser mantidos entre 2 °C e 8 °C antes do uso. Quando isso não ocorre, há perda de eficácia e aumento do risco de efeitos adversos”, afirma.
Segundo a médica, a ausência de controle também abre espaço para falsificações. “O consumidor acredita estar adquirindo um produto original, mas muitas vezes não há garantia de procedência. Já existem registros de fórmulas adulteradas.”
Fiscalização e concorrência
No Brasil, a venda de canetas emagrecedoras depende de autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de prescrição médica.
Além de configurar risco sanitário, o comércio ilegal impacta o mercado formal. De acordo com o superintendente substituto da Receita Federal, Erivelto Moyses Torrico Alencar, a prática gera concorrência desleal, favorecendo produtos que entram no país sem controle tributário e regulatório.
Com a demanda em alta e o lucro elevado, especialistas avaliam que o combate ao contrabando deve se tornar ainda mais desafiador ao longo do ano.

