Um levantamento com dados oficiais entre 2003 e 2022 indica que a ampliação da rede de esgoto em Campo Grande foi acompanhada por uma melhora expressiva nos indicadores de saúde pública. De acordo com pesquisa da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o avanço do esgotamento sanitário resultou em uma redução de 91% nos casos de Doenças Diarreicas Agudas (DDA) ao longo de duas décadas.
Os dados também mostram uma forte relação entre a expansão da cobertura de esgoto e a queda nas internações por essas doenças. Segundo o professor Ariel Ortiz Gomes, coordenador do estudo, os dois indicadores apresentam alta correlação. “Eles estão fortemente relacionados”, afirma.
A taxa de internação caiu de 157,37 casos por 100 mil habitantes em 2003 para cerca de 11,25 em 2022, o que representa uma diminuição de aproximadamente 93%. Entre crianças de até quatro anos, consideradas mais vulneráveis, a redução chega a 97%. O pesquisador destaca que o recorte por faixa etária reforça a consistência dos resultados. “Esse é um grupo mais sensível, e os dados mostram uma queda muito significativa”, explica.
No campo da infraestrutura, a transformação também é evidente. Em 18 anos, a cobertura de esgoto passou de 19% em 2003 para 89% em 2021, incorporando cerca de 665 mil pessoas ao sistema.
A pesquisa foi apresentada durante o 33º Congresso da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) pelos pesquisadores Ariel Ortiz Gomes e Victor Daniel Ladislau Bezerra. O estudo reúne informações do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do DATASUS e do IBGE.
Apesar dos avanços, ainda há desafios. Segundo Gomes, regiões periféricas seguem com déficit de cobertura e carências em serviços como pavimentação, drenagem e coleta de resíduos. Outro obstáculo é a baixa adesão à rede já disponível. “Em alguns casos, a estrutura passa em frente às residências, mas a ligação demora a ser feita por custo, receio ou falta de informação”, observa.
O levantamento também aponta impacto direto nas contas públicas. Os gastos com internações por doenças diarreicas caíram de cerca de R$ 48 mil por 100 mil habitantes em 2003 para aproximadamente R$ 7 mil em 2017, mantendo tendência de queda ao longo dos anos, apesar de oscilações.
Para sustentar a análise, foram aplicados métodos estatísticos, como regressões e testes de correlação, que indicaram associação consistente entre a expansão do saneamento e a melhora nos indicadores de saúde. Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que não é possível atribuir causalidade exclusiva. “Outros fatores, como a atenção básica, também influenciam”, pondera o coordenador.
O estudo ainda destaca o volume de investimentos no período, que em alguns anos ultrapassou R$ 100 milhões, especialmente durante fases de expansão da rede. Segundo Gomes, os efeitos vão além do saneamento. “A chegada da rede geralmente vem acompanhada de melhorias como pavimentação e drenagem, o que valoriza a região e eleva a qualidade de vida”, afirma.
Do ponto de vista social, crianças e idosos seguem como os grupos mais expostos às doenças relacionadas à falta de saneamento. Em 2022, eles representavam cerca de 21,2% da população da Capital. “As crianças, por exemplo, têm maior exposição a agentes contaminantes e o sistema imunológico ainda em desenvolvimento”, explica.
Ao final, o estudo conclui que o município se aproxima da universalização do esgotamento sanitário e apresenta evidências de que o investimento em infraestrutura básica contribui diretamente para a melhoria da qualidade de vida e para a sustentabilidade do sistema público de saúde.
