Mais de um ano após o assassinato da jornalista Vanessa Ricarte, o acusado pelo crime voltou a sair de uma audiência sem prestar depoimento. A segunda audiência de instrução do processo ocorreu nesta segunda-feira (9), mas o interrogatório de Caio Cesar Nascimento Pereira foi adiado porque a perícia no celular apreendido pela polícia ainda não foi concluída.
Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi morta no dia 12 de fevereiro de 2025. O caso tramita sob sigilo na 1ª Vara do Tribunal do Júri, sob condução do juiz Carlos Alberto Garcete.
Durante a audiência, o assessor de imprensa Joilson Francelino, amigo da vítima, prestou depoimento pela primeira vez na condição de vítima. Inicialmente ele figurava no processo apenas como testemunha, mas passou a ser considerado vítima de tentativa de homicídio após decisão judicial.
A defesa de Caio afirmou que o interrogatório não ocorreu porque ainda é aguardado o resultado da perícia realizada no celular apreendido com o réu.
Segundo o advogado Renato Franco, o acusado tem o direito de falar apenas após a produção de todas as provas. “Primeiro se reúne todo o conjunto de provas e, depois, ele, no exercício da autodefesa, se manifesta sobre o que concorda ou não”, explicou.
O processo também recebeu um aditamento do Ministério Público ao longo da investigação. De acordo com a defesa, novos elementos foram incorporados à denúncia.
Entre os crimes mencionados estão perseguição, cyberstalking, exposição pornográfica não consentida e violência psicológica. Conforme a defesa, esses pontos dependem de esclarecimentos que podem surgir a partir da perícia realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Ainda não há data definida para uma nova audiência. O interrogatório deve ocorrer somente após a manifestação do grupo responsável pela análise do aparelho.
Mudança de condição no processo
De acordo com o advogado Pablo Arthur Buarque Gusmão, assistente de acusação de Joilson Francelino, a mudança da condição de testemunha para vítima ocorreu após recurso apresentado ao Tribunal de Justiça.
Segundo ele, durante o depoimento, Joilson relatou a dinâmica do crime e o momento em que também teria sido atacado pelo acusado.
O advogado afirmou que o jornalista descreveu a perseguição dentro da residência e relatou que o réu tentou golpeá-lo com uma faca. Ele disse ainda que obstáculos no local impediram que o ataque tivesse consequências mais graves.
Com a mudança no enquadramento, Joilson passou a ser considerado vítima de tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil.
Ainda conforme a acusação, a audiência não avançou para o interrogatório porque a perícia nos celulares apreendidos ainda não foi finalizada. Segundo os advogados, a dificuldade estaria relacionada à criptografia dos aparelhos.
A expectativa agora é que o juiz finalize a ata da audiência e abra prazo para manifestação do Gaeco sobre a possibilidade de acesso aos dados. Após essa etapa, uma nova audiência deverá ser marcada.
O advogado André Gomes, que representa a família de Vanessa, afirmou que o depoimento de Joilson contribuiu para esclarecer pontos da acusação e detalhar a tentativa de homicídio.
Segundo ele, a decisão de adiar o interrogatório do réu foi tomada para aguardar os relatórios da perícia no celular. Depois da conclusão dessa análise, o acusado deverá ser ouvido e o processo seguirá para a decisão de pronúncia, etapa em que a Justiça define se o caso será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Mesmo com a espera pelo laudo, a acusação sustenta que já existem provas suficientes reunidas no processo, incluindo extrações de dados de aparelhos e mensagens.
O crime
Vanessa Ricarte foi assassinada em 12 de fevereiro de 2025 pelo ex-noivo, o músico Caio Cesar Nascimento Pereira. Horas antes do crime, ela havia procurado a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher para denunciar agressões e solicitar uma medida protetiva de urgência.
De acordo com familiares, a jornalista relatou ameaças e episódios de violência, mas teria saído da delegacia sem garantias imediatas de proteção. Em um áudio enviado a um amigo no mesmo dia, ela afirmou que recebeu atendimento considerado frio e foi orientada a retornar para casa.
A decisão judicial que determinava o afastamento do agressor ainda não havia sido comunicada quando o ataque ocorreu. Vanessa foi esfaqueada na entrada da casa onde morava, no bairro São Francisco.
O caso gerou grande repercussão e levantou questionamentos sobre os protocolos de atendimento a mulheres em situação de violência.

