O patrimônio de policiais civis de Mato Grosso do Sul e movimentações financeiras supostamente ligadas ao tráfico de drogas são questionados pelo Ministério Público Estadual (MPMS) na denúncia da Operação Infiltrados. Entre os elementos apresentados estão uma residência avaliada em R$ 4 milhões, um Ford Mustang estimado em R$ 370 mil e transferências que, segundo a acusação, teriam abastecido o esquema de desvio de entorpecentes.
A denúncia do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que recursos provenientes da comercialização das drogas teriam passado por contas de terceiros antes de chegar aos agentes públicos investigados.
Um dos casos envolve o policial civil Douglas Tobias. Conforme o documento, a esposa dele, Jheth Jeanne Rodrigues Mundim Donalonso Tobias, informou que o casal possui uma casa de alto padrão, estimada em aproximadamente R$ 4 milhões, além de diversos veículos. Entre eles está um Ford Mustang 2011 5.4 Shelby GT500, avaliado em cerca de R$ 370 mil.
Na avaliação do Ministério Público, o patrimônio atribuído ao policial não seria compatível com os rendimentos lícitos identificados, mesmo considerando eventuais retiradas de empresa. A mulher declarou que parte da construção foi custeada por financiamento da Caixa Econômica Federal, mas o Gaeco sustenta que essa explicação não justificaria integralmente os bens apresentados.
Outro ponto da denúncia trata das movimentações de Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”. Ele é apontado pela acusação como um dos responsáveis pela venda de drogas que teriam sido desviadas pelos policiais.
A análise financeira inclui operações posteriores à apreensão de 643 quilos de cocaína pela Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), em Bela Vista, no dia 21 de maio de 2024.
Segundo o MPMS, Lucas teria recebido mais de R$ 1,6 milhão de Lavínia Carvalho da Luz entre maio e outubro daquele ano, por meio de transferências para a conta de sua mulher, Rayane Luiz Vieira. A acusação afirma que parte do dinheiro foi sacada e entregue em espécie aos policiais envolvidos.
Em um dos recortes apresentados, foram identificadas 46 transferências de Lavínia para Rayane, que somaram R$ 314.308,40 entre 22 de maio e 1º de outubro de 2024. A primeira data corresponde ao dia seguinte à apreensão da carga de cocaína.
Para o Gaeco, contas de pessoas próximas a Lucas teriam sido usadas para esconder a origem e o destino dos recursos, dando aparência de receitas regulares a valores supostamente obtidos com o tráfico.
A denúncia também menciona uma transferência de R$ 130 mil realizada pelo policial civil Nelson Ricardo Barros de Oliveira em 8 de outubro de 2024. O dinheiro foi destinado à empresa Ateliê Raro Fabricação e Comércio de Móveis Ltda., ligada a Douglas Tobias.
O Ministério Público relaciona a operação à suposta participação dos dois agentes no desvio de cocaína e sustenta que a transferência teria servido para ocultar a origem e a destinação do dinheiro.
Os gastos do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, apontado pelo Gaeco como um dos principais integrantes da organização investigada, também foram incluídos na denúncia.
Conforme o documento, planilhas localizadas nos dados telemáticos do delegado indicavam previsão superior a R$ 1,6 milhão apenas para o acabamento de uma residência no condomínio Alphaville, em Campo Grande. Desse montante, mais de R$ 1,2 milhão teriam sido pagos a partir de março de 2025.
O levantamento cita despesas com automação, eletrodomésticos de luxo, madeiras e churrasqueira. Segundo o MPMS, o custo total da construção seria maior que o registrado nas planilhas, sem considerar o valor do terreno.
Na denúncia, o Ministério Público pede a perda de valores e bens que considera relacionados aos crimes, incluindo veículos e o imóvel de Hoffman no Alphaville 1. Também requer a perda dos cargos públicos dos agentes denunciados e o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.
Os pedidos dependem de decisão judicial. As suspeitas sobre o patrimônio e as movimentações financeiras fazem parte da acusação apresentada pelo Gaeco, e os denunciados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.

