Uma parceria firmada em 2023, em São Gabriel do Oeste, entre duas empresas do setor frigorífico terminou em abril deste ano em meio a acusações mútuas e uma disputa judicial que envolve milhões de reais.
De um lado, a Boibras, que está em recuperação judicial desde antes do acordo, afirma que a BMG Foods deixou de cumprir o contrato, que previa o abate mensal de 12 mil bovinos. A empresa sustenta que, após compensações financeiras entre as partes, ainda teria R$ 4,3 milhões a receber.
Já a BMG Foods, ligada ao frigorífico paraguaio Concepción e considerada uma das maiores processadoras de carne bovina do país, acusa a parceira de romper o acordo após se beneficiar de investimentos significativos. Segundo a empresa, foram mais de R$ 10 milhões aplicados na modernização da planta industrial, incluindo a habilitação para exportações ao mercado chinês.
A companhia também alega que a Boibras passou a dificultar o cumprimento do contrato ao priorizar o abate de animais próprios, além de acumular ações trabalhistas. Na contestação, a BMG afirma que a rescisão ocorreu por culpa exclusiva da Boibras e cobra R$ 40,9 milhões, sendo R$ 28,1 milhões referentes a investimentos, custos operacionais e prejuízos, além de R$ 12,7 milhões em multa contratual.
A disputa ganhou novo capítulo no dia 8 de abril, quando a Justiça de São Gabriel do Oeste atendeu a um pedido da Boibras e suspendeu os efeitos do contrato entre as empresas. A decisão também autorizou a liberação da planta frigorífica para operações com terceiros, encerrando a exclusividade que existia até então.
Na ação, a defesa da BMG argumenta que a Boibras só conseguiu manter suas atividades graças ao acordo firmado, destacando aportes financeiros que ultrapassariam R$ 15 milhões, além de adiantamentos. A empresa também acusa a parceira de realizar mais de 11 mil abates fora dos termos contratuais, obtendo lucro sem assumir integralmente os custos operacionais.
Além disso, a BMG aponta que mais de 150 ações trabalhistas foram movidas em decorrência de supostas irregularidades atribuídas à Boibras, o que teria contribuído para o rompimento por justa causa.
No processo, a Boibras solicitou que o caso tramitasse sob segredo de Justiça, alegando exposição negativa e repercussão de informações consideradas prejudiciais à imagem da empresa.
A parceria entre as duas companhias era vista como essencial para a recuperação do frigorífico sul-mato-grossense, que enfrentava grave crise financeira. O acordo garantia o fluxo de produção e investimentos em um momento crítico.
Apesar disso, o processo de recuperação judicial da Boibras segue cercado de questionamentos por parte de credores, que relatam atrasos e dificuldades no cumprimento do plano apresentado.
O cenário é agravado pela estrutura compartilhada entre as empresas, que operam na mesma planta frigorífica às margens da BR-163, evidenciando o grau de interdependência que marcou a relação.
Agora, o que começou como uma estratégia conjunta de recuperação e crescimento se transformou em uma disputa judicial complexa, envolvendo versões divergentes, passivos elevados e incertezas sobre o futuro das operações.

