Policiais investigados por desviar drogas apreendidas em Mato Grosso do Sul condicionavam o fornecimento de novas cargas de cocaína ao pagamento integral das remessas anteriores, segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A dinâmica é descrita em conversas reunidas na investigação que embasou a Operação Infiltrados.
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, identificado como “Careca” entre os integrantes do suposto esquema, é apontado pelos investigadores como responsável por comandar o desvio de entorpecentes, principalmente cocaína.
Diálogos registrados em 2022 entre suspeitos de revender as drogas indicam, conforme o Gaeco, uma rotina organizada de entregas e cobranças. Os agentes, em sua maioria policiais civis, teriam entorpecentes disponíveis para entrega imediata, mas exigiriam a quitação dos débitos antes de autorizar novos repasses.
Em uma conversa de dezembro daquele ano, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, relatou a Edimilson da Silva Santos que não havia conseguido retirar outra carga da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) porque ainda existiam pagamentos pendentes.
Na cobrança, Lucas afirmou que também estava sendo pressionado pelo fornecedor e dependia do dinheiro de Edimilson para acertar a dívida e receber mais drogas.
Em outro momento, reforçou que o prazo estava terminando: “Amanhã é o último dia para tirar lá. Se não pagar, não conseguimos mais, aí só no ano que vem. Preciso pegar ’30 de branca’”.
Segundo a interpretação do Gaeco, as mensagens demonstram a preocupação dos envolvidos com uma possível interrupção do fornecimento. Os investigadores sustentam que a disponibilidade de drogas para pronta entrega era mantida pelo acesso dos policiais ao estoque de entorpecentes apreendidos e sob custódia do Estado.
Cobranças antes das férias
O período de férias dos supostos fornecedores também aparece nos áudios atribuídos a Lucas. Nas mensagens, ele insistiu na necessidade de pagar os policiais antes do afastamento, para garantir a continuidade das entregas.
“Os cara vai entrar de férias, mané, essa semana, acho que quinta-feira eles entra de férias, mané”, afirmou em um dos trechos reproduzidos na investigação.
Para o Gaeco, as referências recorrentes às férias e ao recesso reforçam a identificação de policiais civis lotados na Denar como responsáveis pelo repasse dos entorpecentes ao grupo investigado.
A defesa de Lucas, representada pelo advogado Tiago Bunning, informou que ele já estava preso preventivamente e respondia a uma ação penal. O advogado sustentou que não há fatos novos que justifiquem outra prisão, sobretudo de familiares do investigado.
Drogas voltavam ao mercado ilegal
A Operação Infiltrados apura a suspeita de que agentes de segurança desviavam parte das drogas apreendidas e as forneciam a traficantes. Segundo o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), os entorpecentes eram posteriormente recolocados no mercado ilegal.
As investigações começaram em outubro de 2025, com base em provas obtidas nas operações Traquetos e Blindspot. O material teria revelado a participação de policiais em um esquema de desvio, principalmente de cocaína.
A operação cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos.
Conforme o MPMS, o grupo utilizava duas formas de retirar drogas das apreensões: omitia parte da quantidade nos registros oficiais das ocorrências ou subtraía os entorpecentes diretamente dos depósitos policiais.
O material seria entregue a traficantes vinculados à organização, responsáveis pela revenda. Para os investigadores, os agentes suspeitos se aproveitavam das funções exercidas no combate ao crime para atuar como fornecedores do tráfico.

