A 4ª fase da Operação Successione, conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), trouxe à tona uma organização criminosa liderada pela família Razuk, que faturava pelo menos R$ 600 mil por mês com a exploração do jogo do bicho. Para disfarçar a origem ilícita dos recursos, o grupo criou empresas de fachada e chegou a adquirir uma aeronave.
Estima-se que, ao longo de cinco anos, a organização tenha lavado cerca de R$ 36 milhões. Em decorrência disso, o Gaeco solicitou à Justiça a apreensão desse montante em bens e valores. A denúncia afirma que o dinheiro “circulou pelo sistema financeiro nacional e pela economia formal, disfarçado por diversas atividades desenvolvidas pela família Razuk”.
Entre os métodos utilizados pela organização, destaca-se a tentativa de estabelecer uma empresa de fachada no Brasil em parceria com um empresário paraguaio. O empreendimento teria aparência legal, mas operaria jogos ilegais, similar a um cassino. As negociações envolveram o empresário estrangeiro e Marcelo Tadeu Cabral, apontado como um dos operadores financeiros do grupo.
Em uma conversa interceptada, um empresário identificado como “Artista” ou “Amauri” enviou a Cabral um vídeo mostrando uma sala repleta de máquinas de jogos online. Ele questionou sobre a possibilidade de firmar uma parceria para instalar o negócio no Brasil, utilizando uma empresa de fachada.
Outro nome mencionado é Marco Aurélio Horta, ex-assessor do deputado estadual Roberto Razuk Filho, conhecido como Neno Razuk. Segundo o Gaeco, Horta era responsável por pagamentos de despesas pessoais do deputado e de sua família, e chegou a entregar um cartão de crédito para uso de Neno, além de realizar a compra de um avião.
Durante seu interrogatório, Horta afirmou que, embora o contrato de compra da aeronave estivesse em nome de Neno, o verdadeiro proprietário era seu pai, Roberto Razuk. Na casa de Horta, foi encontrada uma cópia original do contrato de compra e venda do avião, avaliada em R$ 1,1 milhão, e parte do pagamento, inclusive a última parcela, foi realizada em dinheiro vivo. As parcelas eram altas, com a menor sendo de R$ 100 mil, evidenciando a estratégia do grupo de adquirir bens de alto valor com recursos em espécie, convertendo dinheiro ilícito em patrimônio aparentemente legal.
A denúncia também menciona a apreensão de 113 comprovantes de depósitos fracionados em dinheiro, totalizando R$ 690 mil. Na residência de Horta, foram encontrados 13 cheques assinados por Neno Razuk, somando R$ 841,1 mil, que eram usados como garantia em aquisições de bens pela família e posteriormente resgatados por Horta após pagamentos em dinheiro vivo provenientes do jogo ilegal.
Os depósitos fracionados, com valores de até R$ 2 mil cada, foram realizados sem identificação do remetente, uma tática para evitar a detecção pelos órgãos de controle, como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), caracterizando uma prática típica de lavagem de dinheiro.
Além disso, Horta teria negociado o pagamento de uma dívida pessoal do deputado, adquirido um veículo em seu nome para uso de Neno — com parcelas debitadas de sua conta — e, em seguida, cobrado os valores da família Razuk.
O advogado Rhiad Abdulahad também é citado na denúncia como um dos envolvidos na lavagem de capitais. Durante a operação, foram apreendidos em sua residência R$ 274,9 mil e € 1.065 em espécie. Abdulahad comprou um imóvel rural de 40 hectares por R$ 300 mil em dinheiro vivo, além de automóveis que não foram transferidos para seu nome, ocultando o destino dos recursos.
A denúncia ainda aponta que a criação de empresas de apostas foi utilizada como uma forma de branqueamento de valores, com o intuito de misturar recursos do jogo do bicho e de outras atividades de jogo de azar.
