Com previsão de início das operações ainda neste ano, a Rota Bioceânica também desperta preocupação das autoridades pelo risco de se tornar um corredor do tráfico internacional.
Para o diplomata do Ministério das Relações Exteriores João Carlos Parkinson de Castro, o enfrentamento ao narcotráfico na região passa, necessariamente, pela atuação integrada da Polícia Federal (PF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), com superação de disputas internas.
Ao abordar os desafios estruturais e diplomáticos do projeto, o diplomata destacou o papel do Brasil na governança do corredor e os impactos econômicos esperados para Mato Grosso do Sul, que pode deixar de ser apenas produtor de commodities e se consolidar como um hub logístico estratégico.
Segundo ele, além do potencial econômico, é fundamental evitar que o novo acesso seja explorado por organizações criminosas, sobretudo pela ligação com países vizinhos.
De acordo com Parkinson, as ações de combate ao narcotráfico dependem da união entre PF e PRF, para garantir uma segurança mais forte e eficaz.
“O Corredor, a partir de novembro de 2024, passou a dispor, na sua governança, de uma sexta mesa técnica, a de segurança integrada. Acredito que, superada a rivalidade entre a PF e a PRF, seja possível construir um novo ambiente para as forças de segurança, muito mais colaborativo e menos competitivo”, afirmou.
O diplomata acrescentou que, em um cenário de maior cooperação, com compartilhamento de informações estratégicas e de recursos, haverá ampliação da oferta de cursos de capacitação e treinamento, o que pode reduzir, ainda que não de forma definitiva, o risco de consolidação de uma nova rota do tráfico no Estado.
“Espera-se que brote um sentimento de solidariedade e companheirismo, capaz de refazer a imagem negativa que os efetivos têm uns dos outros. O espírito do corredor, alimentado pelo interesse comum e o coletivismo, será capaz de construir uma força de segurança nacional realmente integrada e em condições de dar uma resposta efetiva à população fronteiriça e à sociedade”, disse.
“Isso poderá reduzir gradualmente o sentimento de desconfiança e descrença que ainda existe entre os efetivos, o que hoje impede uma resposta eficaz à legítima demanda da sociedade por mais segurança”, completou.
Dados encaminhados pela PRF indicam aumento no volume de drogas apreendidas em 2025, em comparação com o ano anterior. As apreensões de cocaína passaram de 12,4 toneladas para 13,7 toneladas, crescimento de 10,6%. Já a maconha subiu de 261,8 toneladas para 274,7 toneladas, alta próxima de 5%.
Ponte
Com previsão de ligar Brasil e Paraguai até o fim de maio, a ponte internacional da Rota Bioceânica, entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, está a 128 metros da conclusão do vão central sobre o rio, que terá 350 metros ao todo.
As obras foram retomadas em 7 de janeiro, após o recesso de fim de ano. Em dez dias, a construção avançou 12 metros, restando os 128 metros finais para a junção das duas frentes e a ligação física entre os países.
Após essa etapa, terão início os trabalhos finais, que incluem a implantação de calçadas, pistas, iluminação viária e ornamental, além de pavimentação e sinalização. A expectativa é de conclusão dessa fase em agosto, com finalização total do acesso à ponte, do lado paraguaio, em novembro.
A construção começou oficialmente em 14 de janeiro de 2022 e integra um projeto de US$ 1,1 bilhão em investimentos do governo paraguaio, ao longo de 580 quilômetros entre Carmelo Peralta e Pozo Hondo. Desse total, US$ 440 milhões já garantiram a conclusão do trecho entre Carmelo Peralta e Loma Plata; US$ 100 milhões foram destinados à ponte internacional; US$ 354 milhões à pavimentação da Picada 500 (PY-15); e outros US$ 200 milhões ao segmento entre Centinela e Mariscal.
A obra da ponte é executada pelo Consórcio Pybra, formado pelas empresas Tecnoedil, Paulitec e Cidades Ltda, sob coordenação do engenheiro civil paraguaio Renê Gómez.
Rota Bioceânica
A Rota Bioceânica terá início em Porto Murtinho, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, atravessará o Paraguai e a Argentina e seguirá até os portos do Chile. A ligação permitirá que exportações brasileiras cheguem à Ásia com até 17 dias de redução no tempo de transporte, em comparação com a saída pelo Porto de Santos.
O projeto começou a ser debatido em 2014 e teve início em 2017, com a promessa de ampliar a relação comercial do Estado com países asiáticos e sul-americanos. Especialistas apontam que a rota tem potencial para movimentar cerca de US$ 1,5 bilhão por ano em exportações de carnes, açúcar, farelo de soja e couros.
