Uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que policiais ligados à Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) teriam desviado 120 quilos de cocaína de uma apreensão de 643 quilos realizada em Bela Vista, em maio de 2024.
A carga foi apresentada na época como a maior apreensão de cocaína já realizada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Segundo a investigação, aproximadamente 20% do entorpecente teria sido retirado antes da formalização da ocorrência e destinado à comercialização ilegal.
A representação apresentada pelo Gaeco à Justiça sustenta que integrantes do esquema negociaram a cocaína desviada por valores entre R$ 15 mil e R$ 18 mil o quilo. A operação teria movimentado pelo menos R$ 2 milhões, com participação de agentes públicos e intermediários ligados ao tráfico.
Apreensão histórica
A ocorrência que está no centro da investigação aconteceu em 21 de maio de 2024, quando equipes da Denar localizaram um entreposto utilizado pelo tráfico em Bela Vista.
No local, foram encontrados caminhões de calcário adaptados com fundos falsos para o transporte de entorpecentes. Três pessoas foram presas em flagrante.
O Boletim de Ocorrência nº 89/2024/Denar registrou oficialmente a apreensão de 643 quilos de cocaína. Na ocasião, o carregamento foi avaliado em aproximadamente R$ 50 milhões.
Interceptações de mensagens analisadas pelo Gaeco, porém, indicam que os policiais teriam recebido inicialmente a informação de que havia mais de uma tonelada de cocaína no local.
De acordo com a investigação, havia um suposto acerto prévio para que parte da droga fosse desviada. O percentual seria de 30% caso a carga ultrapassasse uma tonelada e de 20% se o volume apreendido fosse inferior.
Como o registro oficial ficou em 643 quilos, segundo os investigadores, o percentual utilizado teria sido de 20%, o que resultaria em aproximadamente 120 quilos destinados ao esquema.
Áudios detalham divisão da droga
Interceptações telemáticas reunidas no processo registraram conversas atribuídas a investigados sobre a divisão dos entorpecentes.
Em um dos diálogos, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK e apontado pelo Gaeco como comprador de parte da droga desviada, comenta os percentuais negociados com diferentes equipes.
“Então, mané, foi igual que eu te falei, a minha equipe lá não vai, os caras querem pagar 20%, aí a equipe do Neguinho quer pagar 30%”, diz uma das mensagens anexadas à investigação.
Em outro trecho, LK afirma que a carga desviada seria dividida entre quatro pessoas.
“Dá 30 quilos pra cada um, mano, mas vai dividir, 120 dividido pra 4, vai dar 30”, afirmou.
Outra gravação faz referência direta ao volume oficialmente apreendido em Bela Vista.
“Se tivesse menos do que uma tonelada e 100, que nem lá tinha 600 e pouco, 643, eles que arredondaram lá pra 650, era 20%”, diz o investigado, conforme a representação.
Investigação aponta relação antiga com traficantes
O Gaeco afirma que o episódio de Bela Vista não teria sido um fato isolado. A investigação aponta que policiais da Denar mantinham contato frequente com integrantes do tráfico e negociavam a retirada de drogas apreendidas.
Conversas interceptadas mostram tratativas envolvendo Lucas da Silva dos Santos e Edimilson Santos Pereira.
Em dezembro de 2022, após a chegada de uma apreensão de 326 quilos de cocaína à sede da delegacia, Edimilson teria pedido que LK intermediasse a retirada de parte do carregamento junto a investigadores.
“Vê se eles não pega dessa que chegou hj (…) Vamos pegar sim”, registra uma das mensagens.
Em seguida, LK teria tratado da quantidade pretendida e da expectativa de lucro com a revenda.
“Nos consegue uns 40 até amanhã pra pegar (…) Dá pra nós ganhar um lucrinho, entendeu? Girar dinheiro, pô, pra depois pagar os caras”, afirmou.
Relatos reunidos pelo Gaeco também apontam que criminosos detidos na própria unidade policial teriam sido abordados para participar de negociações ilegais.
Segundo a investigação, o investigador Douglas Tobias teria entregue fardos de entorpecentes apreendidos diretamente a LK, com conhecimento e autorização do então titular da Denar, delegado Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa.
Patrimônio também entrou na investigação
A apuração passou ainda a analisar a evolução patrimonial dos suspeitos.
No mesmo ano da apreensão de Bela Vista, Hoffmann D’Ávila teria adquirido um terreno em condomínio fechado por R$ 400 mil. O Gaeco também identificou repasses que somam R$ 75 mil para a empresa Ateliê Raro, pertencente a Douglas Tobias.
Para os investigadores, as movimentações podem estar relacionadas à tentativa de ocultar recursos provenientes das atividades criminosas atribuídas ao grupo.
A Justiça autorizou a prisão preventiva de policiais investigados na Operação Infiltrados.
Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa é investigado por organização criminosa, tráfico de drogas, corrupção passiva, peculato, lavagem de dinheiro e violação de sigilo funcional.
Roberto Palmeira da Silva, conhecido como Beto Palmeira, é apontado por organização criminosa, tráfico de drogas, peculato e corrupção passiva. Neverson Vieira de Araújo é investigado por organização criminosa, tráfico de drogas, corrupção passiva e peculato.
Douglas Tobias é investigado por organização criminosa, tráfico de drogas e corrupção passiva.
O cabo da Polícia Militar Alison Lemes Bezerra e o policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos são apontados pelo Gaeco como responsáveis pelo vazamento de informações de sistemas oficiais, entre eles Sigo e Córtex. Ambos são investigados por organização criminosa, violação de sigilo funcional e favorecimento ao tráfico. Alison também é investigado por lavagem de dinheiro.
