Após comandar Campo Grande e ocupar espaços em Brasília, família chega ao pós-eleição dividida entre a oposição e a aliança governista
A eleição de 2026 aprofundou o desafio de uma das famílias mais tradicionais da política de Mato Grosso do Sul: transformar a força histórica do sobrenome Trad em capacidade de voltar a comandar projetos de poder.
Fábio Trad terminou a disputa pelo governo com 23,68% dos votos válidos, diante dos 67,07% de Eduardo Riedel, reeleito no primeiro turno. Nelsinho, por sua vez, entrou na eleição como suplente de Reinaldo Azambuja, abandonando a disputa pela renovação do próprio mandato de senador. Os resultados e as escolhas revelam uma família ainda influente, mas com menor autonomia política.
A trajetória ajuda a dimensionar essa mudança. O patrimônio político construído pelo ex-deputado federal Nelson Trad ganhou projeção com os filhos, que ocuparam espaços no Executivo municipal e no Congresso. Nelsinho venceu as eleições para prefeito de Campo Grande em 2004 e 2008. Marquinhos conquistou a prefeitura em 2016 e foi reeleito em 2020, com 52,58% dos votos. A família acumulou quatro vitórias para governar a Capital, além da presença parlamentar de Fábio.
Esse período reuniu vantagens que se reforçavam: exposição pública, experiência administrativa, relações partidárias e contato com lideranças de bairros. O sobrenome funcionava como referência eleitoral, mas sua força também vinha dos mandatos e da capacidade de reunir aliados em torno de candidaturas competitivas.
A inflexão ficou evidente em 2022. Marquinhos deixou a prefeitura para disputar o governo e terminou em sexto lugar, com 124.795 votos, equivalentes a 8,68%. Fábio não renovou o mandato de deputado federal, enquanto Otávio Trad não conseguiu chegar à Assembleia Legislativa. Nelsinho permaneceu no Senado porque seu mandato, conquistado em 2018, ainda estava em curso. A família preservou representação, mas perdeu espaço nas disputas daquele ano.
A eleição municipal de 2024 mostrou, entretanto, que seria precipitado decretar o esgotamento dos Trad. Marquinhos foi o vereador mais votado de Campo Grande, com 8.567 votos. Otávio também se elegeu, com 2.426. A votação comprovou a existência de uma base local, embora vencer uma disputa proporcional municipal seja diferente de reunir maioria para governar a cidade ou o Estado.
Em 2026, outra dificuldade ficou mais visível: a ausência de um projeto político comum. Fábio disputou o governo pelo PT; Marquinhos concorreu à Câmara dos Deputados pelo PV, integrante da mesma federação; Nelsinho permaneceu no PSD, associado ao grupo de Riedel e Azambuja. Os irmãos afirmam preservar a relação familiar, mas suas escolhas os colocaram em campos adversários.
Politicamente, essa dispersão permite manter interlocução com diferentes grupos, mas dificulta a construção de uma identidade conjunta. O eleitor já não pode interpretar o sobrenome como indicação de um mesmo programa ou alinhamento. Cada integrante precisa sustentar sua própria posição e explicar suas alianças.
Para Fábio, o segundo lugar abre uma possibilidade de atuação como liderança de oposição. Isso, porém, dependerá de continuidade: presença nos municípios, participação no debate público e relação com as bases partidárias. Sua votação não deve ser tratada automaticamente como patrimônio pessoal, porque também expressa a preferência por seu partido e a oposição ao governo estadual.
Nelsinho adotou outro caminho. A suplência na chapa vitoriosa de Azambuja preserva sua ligação com o grupo vencedor, mas não equivale à renovação de uma cadeira própria no Senado. Uma eventual atuação como senador na próxima legislatura dependerá das hipóteses legais de substituição do titular. O espaço para articulação permanece; a autonomia proporcionada pelo mandato próprio diminui.
No horizonte de 2028, Campo Grande representa uma possibilidade de reconstrução, pela história administrativa e pela base eleitoral demonstrada em 2024. Isso não torna uma nova candidatura majoritária inevitável nem assegura competitividade. Será necessário disputar novamente a confiança de eleitores que conheceram as gestões da família, mas também passaram a escolher outras lideranças.
O passado garante aos Trad reconhecimento e experiência. O futuro dependerá da capacidade de converter esses atributos em propostas, alianças e votos. A questão central é quanto poder político cada integrante conseguirá reconstruir para além do peso do sobrenome.
