Capital mais arborizada do País contabilizou 423 ocorrências com quedas de árvores e galhos após vendaval; episódios mostram que patrimônio verde exige monitoramento permanente, poda técnica e prevenção
Ser a capital mais arborizada do Brasil traz sombra, melhora a qualidade do ar, reduz o calor e ajuda a fazer de Campo Grande uma cidade reconhecida pela presença do verde. Mas, quando ventos próximos de 90 km/h atravessam a cidade, o mesmo patrimônio ambiental passa por um teste de resistência — e expõe o tamanho do desafio de manter milhares de árvores dentro de uma área urbana.
O temporal que atingiu Campo Grande na quinta-feira (10) deixou uma espécie de radiografia desse problema. Até esta segunda-feira (14), a Prefeitura havia contabilizado 450 ocorrências relacionadas aos estragos das chuvas, sendo 423 envolvendo quedas de árvores ou galhos. Mais de 35 equipes continuavam mobilizadas nas sete regiões da Capital.
A região central, justamente uma das áreas com arborização mais antiga e árvores de grande porte, concentrou mais de 120 chamados.
O cenário não significa, porém, que Campo Grande tenha árvores demais ou que a arborização seja a responsável pelo desastre. O problema é mais complexo: quanto maior e mais antiga a floresta urbana, maior precisa ser a capacidade do poder público de monitorar, manejar e substituir exemplares que apresentam risco.
Capital mais arborizada do Brasil
Dados do Censo 2022 do IBGE colocam Campo Grande no topo do ranking de arborização entre as capitais brasileiras. 91,4% dos domicílios estão em trechos de vias com pelo menos uma árvore, à frente de Goiânia, com 89,6%, e Palmas, com 88,7%.
É um patrimônio urbano que oferece benefícios difíceis de mensurar apenas em números. Árvores amenizam temperaturas, proporcionam sombra, ajudam na infiltração da água, contribuem para a qualidade do ar e abrigam fauna urbana.
Mas uma floresta urbana desse porte também envelhece.
Árvores crescem, adoecem, têm raízes comprometidas por calçadas e pavimentação, entram em conflito com a rede elétrica e podem sofrer podas inadequadas ao longo de décadas.
Quando um vendaval extremo chega, problemas que permaneceram silenciosos podem aparecer de uma só vez.
Ventos de quase 90 km/h
O temporal da última semana teve força suficiente para derrubar inclusive árvores aparentemente saudáveis.
Segundo a Prefeitura, as rajadas chegaram perto de 90 km/h. Em apenas 24 horas, inicialmente foram contabilizados mais de 160 chamados, número que continuou aumentando à medida que as equipes avançaram pelas regiões atingidas.
Entre quinta-feira e segunda-feira, o acumulado de chuva ultrapassou 102 milímetros, cerca de 40% acima da média histórica de setembro informada para Campo Grande no período.
Ou seja: parte das quedas pode ser explicada pela intensidade do fenômeno meteorológico.
Uma árvore saudável não é indestrutível. Ventos muito fortes conseguem romper galhos, torcer troncos e arrancar raízes mesmo de exemplares que não apresentavam sinais evidentes de comprometimento.
A quantidade de ocorrências, entretanto, reacende uma discussão inevitável: a manutenção acompanha o tamanho da arborização da Capital?
Problema já havia aparecido meses antes
O temporal de setembro não foi o primeiro sinal de alerta em 2026.
Em março, após outra sequência de chuvas fortes, a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos informou ter removido 115 árvores derrubadas por temporais em avenidas, parques, praças, escolas municipais e Emeis. Na ocasião, a Prefeitura afirmou que também intensificaria as podas preventivas.
O histórico mostra que a queda de árvores durante eventos climáticos severos deixou de ser episódio isolado.
O desafio, portanto, não está simplesmente em retirar os troncos depois da tempestade, mas em tentar identificar antes quais exemplares apresentam maior probabilidade de queda.
Dez mil árvores estão monitoradas
Depois do novo temporal, a Prefeitura anunciou que pretende ampliar justamente esse trabalho preventivo.
Uma força-tarefa permanente deve cruzar informações de aproximadamente 10 mil árvores já monitoradas com dados da rede de energia elétrica para identificar áreas prioritárias e antecipar riscos diante de novos eventos climáticos extremos.
Campo Grande já utiliza sistema digital para avaliação de risco de queda de árvores. Relatório municipal referente a 2025 cita o Arbo Link, ferramenta destinada ao mapeamento, acompanhamento e planejamento da manutenção da arborização urbana.
A questão agora é transformar informação em intervenção antes que o vento faça o serviço.
Poda não resolve tudo
Também é equivocado resumir o problema à falta de poda.
Poda excessiva ou feita de maneira tecnicamente inadequada pode enfraquecer uma árvore, desequilibrar sua copa, abrir portas para fungos e doenças e aumentar o risco de ruptura no futuro.
O manejo adequado envolve avaliação das raízes, tronco e copa, identificação de doenças e cavidades, análise da inclinação, espaço disponível para crescimento, interferência da rede elétrica e escolha correta das espécies.
Em alguns casos, a solução será a poda. Em outros, tratamento, acompanhamento ou até retirada e substituição do exemplar.
A própria composição da floresta urbana importa. Estudos sobre Campo Grande já apontaram a necessidade de diversificação de espécies e planejamento permanente da arborização.
Verde precisa ser tratado como infraestrutura
O temporal deixou uma lição que vai além das centenas de árvores e galhos espalhados pelas ruas.
Em uma cidade onde a arborização é tão presente, árvore precisa ser tratada como infraestrutura urbana, assim como asfalto, drenagem, iluminação e semáforos.
Há necessidade de inventário atualizado, inspeção periódica, equipes especializadas, planejamento de substituição e integração entre Prefeitura, concessionária de energia e Defesa Civil.
A resposta emergencial continuará sendo indispensável quando vendavais dessa intensidade ocorrerem. Mas medir a eficiência apenas pela velocidade com que árvores são cortadas e ruas liberadas depois da tempestade é insuficiente.
O verdadeiro desafio é descobrir quantas quedas poderiam ter sido evitadas antes da chegada da chuva.
Campo Grande não precisa escolher entre ter árvores ou ter segurança. Precisa conseguir manter as duas coisas.
Afinal, ostentar o título de capital mais arborizada do Brasil é motivo de orgulho. Administrar essa gigantesca floresta urbana, principalmente diante de eventos climáticos cada vez mais severos, é a conta que acompanha o título.
