Mais de 300 moradores de Mato Grosso do Sul procuraram, nos últimos seis meses, atendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas esportivas e aos jogos de azar on-line. Dados do Ministério da Saúde apontam que 304 pacientes do Estado se cadastraram no serviço de teleatendimento disponibilizado pelo governo federal.
O atendimento remoto foi lançado em março deste ano pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, como alternativa para ampliar o acesso ao acompanhamento psicológico. O serviço está disponível pelo aplicativo Meu SUS Digital.
Em todo o País, 27.701 pessoas já realizaram cadastro na plataforma. Diante do crescimento da procura, o Ministério da Saúde ampliou a capacidade do serviço, que passou de cerca de 600 atendimentos mensais para até 100 mil teleconsultas.
Além da modalidade virtual, pessoas com transtornos relacionados aos jogos podem procurar atendimento presencial nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs) e demais unidades que integram a Rede de Atenção Psicossocial (Raps).
Ao anunciar a expansão do serviço, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o atendimento remoto pode ajudar a reduzir barreiras relacionadas à vergonha e ao preconceito enfrentados por quem desenvolve problemas com apostas.
Segundo ele, o autoteste disponível na plataforma permite identificar sinais de risco e facilita o primeiro contato do paciente com profissionais de saúde sem que seja necessário sair de casa.
O psicólogo clínico Alexandre Zanirato Contini da Silva Vitoriano, especialista em Análise do Comportamento, avalia que a disponibilidade de um canal de acolhimento pode contribuir para que pessoas em situação de vulnerabilidade reconheçam o problema e iniciem o tratamento.
“Ter uma linha aberta e acolhedora para começar a conversar a respeito, entender e identificar a necessidade de ajuda pode, sim, atuar como um fator protetivo para pessoas que enfrentam essas questões, para compreender como esses comportamentos se desenvolveram e quais alternativas são possíveis para uma melhor qualidade de vida”, afirmou.
Sinais de alerta
Entre os comportamentos que podem indicar uma relação problemática com apostas estão o aumento do tempo dedicado aos jogos, a utilização de valores cada vez maiores e mudanças na forma como a pessoa reage após sucessivas perdas.
Também devem ser observados afastamento de familiares e amigos, comprometimento das relações sociais e uso do dinheiro destinado a despesas essenciais para continuar apostando.
O especialista destaca que a identificação precoce do problema pode reduzir tanto os prejuízos financeiros quanto os impactos emocionais provocados pela compulsão.
A dependência em jogos de azar é reconhecida como transtorno mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Conhecida como ludopatia ou transtorno do jogo, a condição é caracterizada pela dificuldade persistente de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de consequências negativas.
Atendimento começa com autoteste
Para buscar ajuda pelo Meu SUS Digital, o usuário precisa inicialmente responder a um questionário de avaliação sobre sua relação com os jogos.
Depois, deve preencher os dados pessoais, informar se busca atendimento para si próprio ou para um familiar e escolher a forma de contato.
Ao concluir o cadastro, o sistema fornece um número de protocolo para acompanhamento da solicitação. Após o agendamento, o paciente recebe o link da videochamada e orientações para participar da consulta.
As sessões com psicólogos são realizadas por vídeo, têm duração média de 50 minutos e geralmente ocorrem uma vez por semana.
O primeiro ciclo pode chegar a dez sessões. Depois desse período, o profissional realiza nova avaliação para definir se o paciente terá alta, continuará no atendimento virtual ou será encaminhado para acompanhamento presencial.
Campo Grande tem cerca de 32,5 mil apostadores
O avanço das plataformas de apostas também pode ser observado em Campo Grande. Levantamento do Ministério da Fazenda aponta que aproximadamente 3,35% dos moradores da Capital participam de jogos de azar on-line.
O percentual representa cerca de 32,5 mil pessoas. O contingente é maior que a população de 63 dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul e se aproxima, por exemplo, do número total de habitantes de São Gabriel do Oeste.
Apesar do volume expressivo, Campo Grande aparece entre as capitais brasileiras com menor proporção de apostadores. Em algumas cidades do País, o percentual é significativamente superior.
Dívidas podem chegar a centenas de milhares de reais
Os prejuízos provocados pelas apostas também vêm aparecendo em disputas judiciais. Em um dos casos registrados em Mato Grosso do Sul, um funcionário de empresa pública, morador de Campo Grande, acionou a Justiça após acumular perdas de aproximadamente R$ 597 mil em uma única plataforma.
Ao longo de três anos, ele teria transferido cerca de R$ 1,33 milhão de sua conta bancária para apostas e recebido de volta aproximadamente R$ 740,3 mil.
No histórico da plataforma, considerando apostas, ganhos, créditos e retiradas, a movimentação chegou a aproximadamente R$ 9,5 milhões.
Com o acúmulo das perdas, o trabalhador passou a comprometer grande parcela da própria renda com empréstimos e outras operações financeiras. Embora tenha rendimento mensal próximo de R$ 12 mil, os descontos fazem com que receba cerca de R$ 4 mil líquidos por mês.
O caso exemplifica um dos principais sinais de agravamento da dependência: a continuidade das apostas mesmo quando o comportamento passa a comprometer despesas essenciais, renda familiar e capacidade de pagamento.
