Na corrida eleitoral, derrota antecipada nunca é admitida. Ninguém entra numa disputa dizendo que vai perder, até porque reconhecer a própria fragilidade antes das urnas seria tornar ainda pior uma situação que já parece bastante complicada. Em Mato Grosso do Sul, porém, o PT dá sinais cada vez mais evidentes de que entrou no jogo apenas para cumprir tabela.
Sem renovar seus quadros e com enorme dificuldade para produzir novas lideranças competitivas, o partido parece sufocado por um jeito arcaico de fazer política e acomodado às migalhas de poder conquistadas ao longo dos anos.
O resultado, neste pleito, é uma coligação eleitoral confusa, contraditória e politicamente difícil de explicar até para uma parcela do eleitorado histórico da legenda.
O desastre começa justamente pela chapa majoritária.
Para encabeçar a disputa pelo Governo do Estado, o PT apostou num verdadeiro “estranho no ninho”, importado do campo de centro-direita para vestir, às pressas, uma camisa que nunca foi exatamente a sua.
Fábio Trad (MDB-PSD-PT), o Fabinho, é oriundo de uma tradicional família de políticos sul-mato-grossenses que, ao longo das últimas décadas, transitou principalmente entre a direita e o centro. Agora, surge com uma roupagem de esquerda para liderar justamente a chapa petista ao Governo de Mato Grosso do Sul.
Trad já ocupou cargo no governo Lula, na Embratur, e nos bastidores eleitorais circulam especulações de que, em caso de derrota nas urnas e eventual reeleição do presidente, poderia novamente encontrar espaço na estrutura federal — desta vez em uma posição de maior relevância.
Seria, digamos assim, um “carguinho maior”.
Não há confirmação pública de qualquer acordo nesse sentido. É conversa de bastidor, mas daquelas que ganham força nos corredores da política justamente porque ajudam a alimentar uma pergunta inevitável: qual seria o destino político do candidato caso o projeto eleitoral em Mato Grosso do Sul fracasse?
A metamorfose de Fábio Trad pode funcionar nos gabinetes onde alianças são costuradas, mas o desafio é fazê-la funcionar nas ruas. Principalmente diante do eleitor mais antigo, que acompanha a política sul-mato-grossense e sabe de onde o moço veio, com quem caminhou e quais grupos políticos estiveram ao seu lado ao longo da trajetória.
E a composição não para por aí.
Outro caso emblemático é o da candidata ao Senado Soraya Thronicke (do PL ao PSB), que construiu sua ascensão eleitoral identificada com o campo da direita e agora aparece alinhada a uma composição de esquerda.
Para antigos aliados, a mudança foi encarada como traição. Para os novos companheiros, tornou-se uma parceria eleitoral conveniente.
É uma guinada política considerável.
Nos bastidores, também circulam especulações sobre ambições futuras da senadora em Brasília, inclusive a possibilidade de buscar espaço de destaque em uma eventual nova administração Lula.
Um ministério? Pois é. Dá para acreditar?
Mais uma vez, porém, expectativa de cargo futuro não pode ser tratada como acordo consumado enquanto não houver confirmação dos envolvidos.
Para completar esse mosaico eleitoral aparece Vander Loubet, veterano da política brasiliense e figura recorrente da bancada federal de Mato Grosso do Sul.
Experiente nos corredores do Congresso, conhecedor das engrenagens partidárias e acostumado ao jogo pesado de Brasília, Vander resolveu sonhar mais alto.
O problema é convencer o eleitor a embarcar nesse voo.
Pelos números apresentados nas pesquisas eleitorais, sua candidatura enfrenta dificuldades para ganhar altitude. Entre experiência política e intenção de voto existe uma distância que campanha, estrutura partidária e tempo de televisão terão de tentar diminuir.
O resultado é uma composição que parece saída de um laboratório de engenharia eleitoral.
De um lado, um candidato ao governo vindo da centro-direita e transformado em cabeça de chapa petista. De outro, uma senadora que chegou a Brasília impulsionada pela direita e agora divide espaço político com a esquerda. Para completar, um veterano petista tentando transformar décadas de Câmara Federal em combustível para um projeto maior.
É uma salada ideológica difícil de digerir.
E essa turma ainda espera que o eleitor encare toda essa engenharia como algo absolutamente normal.
Talvez seja normal na velha política dos acordos de gabinete, das conveniências eleitorais, das acomodações futuras e das alianças que mudam conforme sopra o vento.
Para quem observa de fora, entretanto, a impressão pode ser bem diferente: a de um partido envelhecido, sem renovação, carente de lideranças próprias competitivas e obrigado a juntar peças de origens políticas completamente diferentes para permanecer no tabuleiro.
No final, em vez de apresentar uma chapa com identidade facilmente reconhecível, o PT de Mato Grosso do Sul conseguiu produzir uma espécie de Frankenstein eleitoral: pedaços de direita, centro e esquerda costurados sob uma mesma bandeira na tentativa de ganhar vida nas urnas.
Se o eleitor vai acreditar nessa criatura, são outros quinhentos.
Vai vendo!
