O inquérito, conduzido pelo delegado Ricardo Marques Sarto, foi concluído no dia 4 de agosto, cinco meses depois da deflagração da Operação Agro Fantasma. A investigação começou a partir de negociações envolvendo compra e venda de grãos e uma aeronave.
Mário Sérgio e Pedro Henrique também foram indiciados por fraude processual. Conforme a polícia, os dois teriam retirado, destruído e queimado caixas com documentos, além de apagarem imagens de câmeras de segurança após tomarem conhecimento da investigação.
O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público de Mato Grosso, que poderá solicitar novas diligências ou apresentar denúncia à Justiça. De acordo com a Polícia Civil, as empresas Imaculada Agronegócio e Santa Felicidade Agro Indústria teriam sido utilizadas nas negociações investigadas.
Inicialmente, o produtor rural Silvano dos Santos calculou as perdas em aproximadamente R$ 70 milhões. Após analisar as operações, a polícia chegou ao valor de R$ 57,734 milhões.
Negócios iniciais teriam sido usados para conquistar confiança
Segundo a investigação, Mário Sérgio e Pedro Henrique começaram realizando negócios menores com Silvano e efetuando os pagamentos dentro dos prazos. A estratégia, na avaliação dos investigadores, teria servido para conquistar a confiança do produtor antes da ampliação das operações.
O relatório policial também aponta que os investigados alugavam aeronaves, utilizavam veículos de luxo e exibiam relógios de alto valor, comportamento que teria contribuído para transmitir uma imagem de elevada capacidade financeira.
Sérgio Assis, que já exerceu mandato de deputado estadual em Mato Grosso do Sul e foi candidato a vice-governador, teria participado desse processo ao oferecer garantias ao produtor. Conforme a investigação, ele afirmou que “estava por trás dos meninos” e que arcaria com eventuais dívidas. Também teria mencionado possuir fazendas em três estados e mais de 300 funcionários.
A partir da relação estabelecida, Silvano teria sido convencido a adquirir grãos de outros produtores em seu próprio nome, contando com a garantia de pagamento do grupo. Com o aumento das operações e a interrupção dos pagamentos, o produtor precisou contrair um empréstimo de R$ 16 milhões para quitar parte dos compromissos assumidos.
A investigação também identificou uma negociação envolvendo uma aeronave avaliada em R$ 5,8 milhões. Segundo a polícia, Silvano recebeu apenas R$ 2,1 milhões, ficando um saldo de R$ 3,7 milhões sem pagamento.
Outro ponto apurado foi a comercialização de soja e milho. A Polícia Civil sustenta que a Imaculada Agronegócio adquiria os produtos e posteriormente os revendia por valores inferiores aos pagos na compra.
Para o delegado Ricardo Marques Sarto, os elementos reunidos indicam a possível existência de um esquema estruturado envolvendo simulação de fretes e revenda de mercadorias com margem negativa, com o objetivo, em tese, de gerar recursos imediatos para os investigados.
Negociações chegaram a R$ 81,6 milhões
O relatório final aponta que as operações envolvendo grãos e a aeronave movimentaram R$ 81,685 milhões. Desse total, R$ 23,951 milhões teriam sido pagos, restando prejuízo calculado em R$ 57,734 milhões.
Em depoimentos prestados à Polícia Civil, empresários reconheceram a existência de dívidas, mas atribuíram os atrasos nos pagamentos a dificuldades financeiras.
Os investigadores também analisaram a situação da Santa Felicidade Agro Indústria. Segundo o inquérito, Wanderley Soares Barboza Júnior, apontado como proprietário da empresa, declarava renda mensal de R$ 3,8 mil, enquanto o empreendimento teria movimentação estimada em R$ 2 milhões.
Entre os principais indícios relacionados pela Polícia Civil estão o uso de empresas que aparentavam solidez financeira, pagamentos iniciais de menor valor para estabelecer confiança, crescimento expressivo das operações, convencimento da vítima para assumir obrigações em nome próprio, contratação de empréstimos bancários, revenda de grãos abaixo do preço de aquisição, falta de pagamento aos produtores e desaparecimento de recursos.
Investigados negam participação no esquema
Em depoimento, Sérgio Assis negou participação nas empresas investigadas e afirmou que sua atuação empresarial estava restrita à pecuária.
Mário Sérgio reconheceu uma dívida de R$ 16 milhões, mas negou participação na Imaculada Agronegócio. Segundo as informações reunidas no inquérito, ele teria se afastado da empresa após a operação policial.
A Polícia Civil também apreendeu telefones celulares durante a Operação Agro Fantasma, mas informou não ter conseguido acessar os aparelhos por falta das senhas. Paralelamente, informações fiscais relacionadas ao caso são analisadas pela Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso.
Durante a investigação, a Justiça chegou a decretar a prisão preventiva dos quatro investigados. No entanto, segundo a polícia, eles tiveram conhecimento antecipado da operação depois do bloqueio judicial de contas bancárias.
Posteriormente, os investigados se apresentaram à Justiça e as prisões preventivas foram revogadas. A polícia afirma ainda que, na véspera da operação, imagens de câmeras de segurança foram apagadas e documentos foram retirados das empresas.
O indiciamento representa a conclusão da investigação policial e não significa condenação. Caberá agora ao Ministério Público analisar o inquérito e decidir sobre eventual oferecimento de denúncia à Justiça.
