Relatório antigo já indicava presença organizada do PCC em 16 municípios de Mato Grosso do Sul
Uma investigação iniciada há seis anos já apontava que o Primeiro Comando da Capital (PCC) mantinha uma estrutura organizada e distribuída por pelo menos 16 municípios de Mato Grosso do Sul. Documentos apreendidos na Operação Ponto Cego revelaram um sistema interno de cadastramento de integrantes, com informações sobre áreas de atuação, funções, apelidos e histórico dos membros da facção.
O material foi encontrado em julho de 2020, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão. Em um aparelho celular, investigadores localizaram planilhas eletrônicas com 426 registros atribuídos a integrantes do PCC. Após cruzamento com bancos de dados policiais e penitenciários, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) identificou 110 suspeitos, dos quais 100 foram denunciados à Justiça em dez ações penais distintas.
As planilhas funcionavam como um cadastro detalhado da organização criminosa. Além do nome e codinome dos integrantes, constavam matrícula, data de ingresso na facção, padrinhos, cidade de origem, município de atuação, passagens pelo sistema prisional, funções exercidas, punições e até dívidas internas. Nos registros, a cidade onde o integrante atuava era chamada de “quebrada atual”, enquanto os presídios eram identificados como “faculdades”.
Os documentos também descreviam uma estrutura hierárquica, com cargos como “disciplina”, “geral da cidade”, “geral do interior” e “salveiro”, responsável pela transmissão de comunicados internos da facção. Segundo a acusação, essas funções demonstravam a existência de um sistema organizado de comando e fiscalização das atividades do grupo criminoso.
Os registros indicavam atuação em Campo Grande, Coxim, São Gabriel do Oeste, Rio Verde de Mato Grosso, Aquidauana, Corumbá, Dourados, Nova Alvorada do Sul, Deodápolis, Ivinhema, Naviraí, Itaquiraí, Mundo Novo, Eldorado, Fátima do Sul e Ponta Porã. A distribuição dos cargos sugeria que a facção buscava manter presença organizada tanto na Capital quanto em cidades do interior, da fronteira e do Cone Sul.
Apesar do detalhamento, o relatório se refere ao cenário investigado em 2020. O próprio documento ressalta que as informações, por si só, não permitem afirmar que a mesma estrutura permaneça inalterada em 2026, sendo necessária a comparação com dados mais recentes das forças de segurança e do sistema penitenciário.
Das dez ações penais originadas pela investigação, sete tiveram sentenças localizadas. Nelas, 50 réus foram condenados por integrar organização criminosa, enquanto 19 tiveram os processos suspensos, principalmente por não serem localizados, e um teve a punibilidade extinta em razão da morte. As penas variaram de três anos e seis meses a sete anos, um mês e 21 dias de prisão, cabendo recurso das decisões.

