A decisão da senadora Soraya Thronicke (PSB) de manter a pré-candidatura à reeleição ao Senado não encerrou as inquietações dentro do PT de Mato Grosso do Sul. Nos bastidores, dirigentes da legenda avaliam que a crise provocada pela possibilidade de a parlamentar abandonar a disputa deixou sequelas na construção do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Estado.
Segundo apurou a reportagem, embora Soraya tenha reafirmado publicamente sua candidatura após conversas com Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), parte da cúpula petista passou a enxergar o episódio como um sinal de que a aliança entre PT e PSB ainda pode enfrentar turbulências antes do início oficial da campanha.
Reservadamente, integrantes da legenda classificam o impasse como um possível “ovo da serpente” da disputa eleitoral — expressão usada para indicar o surgimento de um problema que, se não for contornado, pode crescer e comprometer um projeto político.
Alerta estratégico
O receio está ligado ao papel considerado estratégico de Soraya na composição da chapa governista em Mato Grosso do Sul. Para o PT, uma eventual desistência da senadora reduziria significativamente a competitividade do campo governista na disputa por uma das duas vagas ao Senado, obrigando a uma reorganização da estratégia eleitoral em pleno período pré-eleitoral.
Apesar da preocupação, dirigentes reconhecem que, neste momento, não há qualquer manifestação pública da parlamentar indicando intenção de abandonar novamente a candidatura. O temor permanece restrito às avaliações políticas feitas internamente.
Proximidade com o governo estadual
Outro ponto observado pela direção petista é a relação institucional mantida por Soraya com o governador Eduardo Riedel (PP), adversário do ex-deputado federal Fábio Trad, pré-candidato do PT ao Governo do Estado.
Embora o diálogo entre autoridades seja considerado natural, integrantes da legenda admitem que a aproximação passou a ser vista com maior cautela depois da negociação que quase levou a senadora a abrir mão da candidatura ao Senado para ocupar a primeira suplência da chapa do deputado federal Vander Loubet (PT).
Nos bastidores, alguns dirigentes demonstram preocupação com a possibilidade de a parlamentar adotar uma postura menos ativa durante a campanha, hipótese que, até o momento, não encontra qualquer confirmação por parte da senadora.
Familiares no governo alimentam desconfiança
As nomeações de familiares de Soraya para cargos comissionados na administração estadual também voltaram ao centro das discussões internas do PT.
Entre os casos citados está o de Rolim de Lima Batista, irmão do marido da senadora, Carlos César Lima Batista, nomeado assessor da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS). Conforme dados do Portal da Transparência, ele recebe remuneração bruta de R$ 13.280,61.
Também é lembrada a nomeação de Hellen de Carvalho Cury Genoud, esposa de Carlos Genoud Neto, irmão da parlamentar. Ela ocupa cargo na Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos (Sead), com remuneração bruta de R$ 8.179,32.
Segundo interlocutores petistas, as nomeações ocorreram quando Soraya ainda integrava o Podemos e fazia parte da base do governo estadual. Mesmo após sua filiação ao PSB e aproximação com o governo Lula, os familiares permaneceram nos cargos, fato que alimenta questionamentos dentro da legenda.
Ainda assim, integrantes do partido reconhecem que a permanência dos comissionados, isoladamente, não comprova qualquer articulação política ou eventual mudança de posicionamento da senadora.
Divergência sobre a origem da negociação
Outro aspecto que permanece sem consenso diz respeito à versão sobre como surgiu a proposta para que Soraya desistisse da disputa.
A senadora afirma que o convite para assumir a primeira suplência da chapa de Vander Loubet partiu do próprio deputado.
Vander, entretanto, sustenta versão diferente. Segundo ele, foi Soraya quem o chamou para uma reunião em sua residência, em Campo Grande, onde comunicou que pretendia deixar a disputa ao Senado por questões pessoais e sugeriu integrar sua chapa como suplente.
A divergência reforçou, entre dirigentes petistas, a avaliação de que o episódio precisa ser acompanhado com cautela para evitar novos desgastes na aliança entre PT e PSB.
Apoio de Lula ameniza tensão
A intervenção do presidente Lula foi considerada decisiva para conter a crise. Após reunião no Palácio do Planalto, Soraya confirmou que seguirá candidata à reeleição e recebeu do presidente a garantia de que continuará sendo o nome apoiado pelo governo federal em Mato Grosso do Sul.
Nos bastidores, lideranças governistas acreditam que a manifestação pública de apoio ajudou a restabelecer a unidade da base. Ainda assim, o episódio permanece como um alerta para a coordenação da campanha.
A avaliação predominante é de que, se não houver novos conflitos até as convenções partidárias, a quase desistência de Soraya será lembrada apenas como um episódio superado. Caso contrário, poderá ser interpretada como o primeiro indício de uma crise política mais ampla dentro da base que sustenta o projeto de reeleição de Lula no Estado.
Fonte: Correio do Estado
