A empresária Olívia Paroschi Jafar, sócia-administradora da Clínica Ross, foi presa na manhã desta terça-feira (7) durante a Operação Gutenberg, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). A ação investiga um suposto esquema de fraudes em contratos públicos que teria movimentado mais de R$ 27 milhões em Mato Grosso do Sul e outros dois estados.
Olívia foi presa em um apartamento no Edifício Olavo Bilac, na Avenida Ricardo Brandão, em Campo Grande. Além da ordem de prisão, agentes cumpriram mandado de busca e apreensão na Clínica Ross, localizada no Jardim dos Estados.
A empresa, fundada em maio de 2026, tem como atividade principal a prestação de serviços médicos ambulatoriais voltados a consultas. A investigação, no entanto, busca apurar a eventual participação da clínica no esquema investigado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
Um dos alvos é o ex-prefeito de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Junior Vasconcelos, que seria chefe de gabinete do deputado Jamilson Name. Escrivão da Polícia Civil, foi cedido para a Assembleia Legislativa em 2024.
Em nota, o deputado Jamilson Name informou que não tem qualquer relação com os fatos apurados pelo Ministério Público e esclareceu que o ex-prefeito investigado não é chefe de seu gabinete.
Ligação com a Operação Lama Asfáltica
A família de Olívia já esteve no centro de outra investigação de grande repercussão no Estado.
Sua mãe, Rossana Paroschi Jafar, sócia-administradora da Gráfica Alvorada, foi alvo da quarta fase da Operação Lama Asfáltica, denominada Máquinas de Lama, deflagrada pela Polícia Federal em 2017.
Na ocasião, a investigação apontou suspeitas de fraudes em contratos firmados com o Governo de Mato Grosso do Sul para fornecimento de livros didáticos. Segundo a apuração, a Gráfica Alvorada teria recebido cerca de R$ 37,4 milhões por meio de contratos considerados fraudulentos, em um esquema que envolveria empresários e agentes públicos.
O proprietário da empresa, marido de Rossana e pai de Olívia, chegou a ser preso durante as investigações. Ele faleceu posteriormente.
Operação investiga contratos de livros e possível atuação na Saúde
Deflagrada nesta terça-feira, a Operação Gutenberg cumpre 16 mandados de prisão e 43 mandados de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, além de São Paulo (SP) e Abadiânia (GO).
Entre os alvos está o ex-prefeito de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Junior Vasconcelos.
De acordo com o MPMS, a investigação aponta a existência de uma organização criminosa formada por empresários e agentes públicos que teria direcionado contratos por meio de inexigibilidade de licitação para aquisição de livros paradidáticos.
O grupo também é suspeito de utilizar empresas e pessoas interpostas para ocultar a origem dos recursos obtidos com os contratos.
Além das irregularidades na área da educação, o Gaeco apura indícios de que integrantes da organização atuavam na área da saúde, exercendo influência sobre a regulação de exames, cirurgias e vagas hospitalares para favorecer municípios ligados ao esquema.
Os presos em Campo Grande estão sendo encaminhados para a Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac/Cepol), onde permanecem à disposição da Justiça.
O esquema
De acordo com as investigações, o grupo criminoso utilizava servidores públicos cooptados para direcionar compras públicas e obter contratos sem licitação (por inexigibilidade) voltados à aquisição de livros paradidáticos.
O impacto aos cofres públicos é milionário:
- Montante desviado: Mais de R$ 27 milhões.
- Lavagem de dinheiro: Os valores eram pulverizados entre integrantes do grupo, servidores corrompidos e laranjas (pessoas físicas e jurídicas) para ocultar a origem ilegal do dinheiro.
- Contratos ativos: O Ministério Público alerta que a organização continuava operando e mantinha contratos válidos com diversos municípios até o momento da deflagração.
Chantagem
A investigação revelou um braço ainda mais sensível do esquema. Integrantes da rede usavam a influência de servidores corrompidos na saúde pública estadual para fazer chantagem: a liberação de exames, cirurgias e até mesmo vagas de leitos em hospitais da rede pública era condicionada à compra dos livros vendidos pelo grupo.
Alvo na política: Entre os investigados da operação está o ex-prefeito de Fátima do Sul, Júnior Vasconcelos, que atualmente exerce cargo no gabinete do deputado estadual Jamilson Name (PP).
O Nome
O nome “Gutenberg” é uma ironia direta a Johannes Gutenberg, o inventor da prensa que popularizou a impressão de livros e expandiu o conhecimento humano. No caso investigado, a nobreza do objeto foi distorcida: os livros paradidáticos serviam apenas como fachada para dar aparência de legalidade ao desvio de dinheiro público.
