Principal referência em saúde pública de Mato Grosso do Sul, Campo Grande acumula cerca de 1,6 milhão de registros no Sistema Nacional de Cartões do SUS — número 66% superior à população estimada da Capital, atualmente em 962,8 mil habitantes, segundo o IBGE. O cenário expõe a sobrecarga da rede municipal, pressionada diariamente por pacientes vindos do interior em busca de consultas, exames, cirurgias e internações especializadas.
Os dados foram apresentados pelo superintendente de Atenção Especializada e Urgências da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), Yama Albuquerque Higa. Segundo ele, o volume elevado não significa necessariamente duplicidade de pacientes, mas reflete o fluxo regionalizado dos atendimentos realizados na Capital.
Em muitos municípios do interior faltam especialistas, exames de maior complexidade e estrutura hospitalar adequada. Com isso, pacientes acabam sendo encaminhados para Campo Grande, que concentra serviços de média e alta complexidade em diversas áreas da saúde.
De acordo com Higa, o sistema nacional registra atendimentos feitos em diferentes cidades vinculados ao mesmo prontuário do paciente. Isso faz com que o cadastro apareça simultaneamente em mais de um município, ampliando o número total de registros associados à Capital.
Para corrigir inconsistências, o Ministério da Saúde promove uma modernização no sistema do Cartão SUS. A proposta é substituir gradualmente o número do cartão pelo CPF do paciente, vinculado ao endereço de residência, melhorando o controle dos atendimentos e evitando falhas cadastrais.
O superintendente explicou que o cancelamento imediato de registros pode prejudicar pacientes que realizam tratamento em diferentes cidades. Por isso, a atualização será feita de maneira gradual.
A pressão sobre a rede municipal também aumenta com os chamados pacientes não regulados — pessoas que procuram diretamente hospitais e unidades de saúde da Capital sem encaminhamento oficial da cidade de origem. Nesses casos, Campo Grande absorve os custos do atendimento sem receber compensação financeira posterior.
Já os pacientes encaminhados oficialmente por meio da Programação Pactuada e Integrada (PPI) garantem repasses do Governo do Estado para auxiliar no custeio dos serviços prestados pelo município.
Na tentativa de ampliar a capacidade de atendimento, a Prefeitura negocia com o Governo do Estado o aumento das vagas reguladas para consultas, exames e procedimentos especializados, o que pode elevar também os recursos destinados à saúde pública da Capital.
O problema se agrava diante da falta de leitos hospitalares. Atualmente, Campo Grande conta com aproximadamente 1,4 mil leitos disponíveis em hospitais conveniados ao município. A Sesau negocia a contratação de novas vagas em unidades como o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, Hospital Adventista do Pênfigo, Hospital do Câncer e Hospital São Julião.
Nos últimos anos, a escassez de leitos já levou a prefeitura a decretar situação de emergência na saúde pública, principalmente durante períodos de aumento da demanda, como meses mais frios e feriados prolongados, quando crescem os casos de doenças respiratórias e acidentes de trânsito.
