Mesmo com mais de 1 milhão de multas aplicadas pela primeira vez na história e arrecadação recorde aos cofres públicos, Mato Grosso do Sul viu aumentar o número de acidentes, feridos e mortes no trânsito em 2025. Os dados revelam que a ampliação da fiscalização não conseguiu conter a escalada da violência nas ruas e rodovias do Estado, que registrou cerca de 24,3 mil sinistros e 223 óbitos no ano passado.
Levantamento do Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul (Detran-MS) aponta que foram registradas cerca de 1,1 milhão de multas no ano passado, alta de 36,5% em comparação a 2024, quando o Estado contabilizou 802,4 mil infrações.
O avanço vem sendo contínuo. Em 2023, foram aplicadas 630,6 mil multas, enquanto em 2022 o número ficou em 542,5 mil. A tendência permanece em 2026: somente nos cinco primeiros meses do ano, mais de 500 mil infrações já foram emitidas, indicando novo recorde histórico.
Apesar da intensificação da fiscalização, os indicadores de violência no trânsito continuam em alta. Conforme os dados do portal Detran em Números, Mato Grosso do Sul registrou, em 2025, cerca de 24,3 mil acidentes, 47,4 mil pessoas feridas e 223 mortes — os maiores índices recentes do Estado.
No ano anterior, os números já eram elevados, mas inferiores aos atuais: 23.315 acidentes, 44.215 feridos e 198 mortes. Os dados de 2023 e 2022 também ficaram abaixo dos registrados no ano passado.
O cenário evidencia que o crescimento das autuações não tem sido suficiente para reduzir os acidentes e salvar vidas, levantando questionamentos sobre a efetividade de políticas centradas apenas na punição.
Para a engenheira Rocheli Carnaval Cavalcanti, do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS), o aumento simultâneo de multas e acidentes demonstra que o foco da gestão pública pode estar concentrado na repressão, sem atacar as causas estruturais da insegurança viária.
Segundo ela, a redução da violência no trânsito exige planejamento urbano, engenharia preventiva e políticas integradas de mobilidade.
“A solução sustentável depende de engenharia preventiva, redesenho urbano, gestão baseada em dados, mobilidade integrada, redução de velocidades operacionais e foco na segurança dos usuários vulneráveis. A fiscalização deve funcionar como apoio da política viária, não como eixo principal dela”, afirmou.
Arrecadação cresce ano após ano
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) determina que os recursos obtidos com multas sejam destinados exclusivamente a ações ligadas ao trânsito. Do total arrecadado, 95% permanecem com o órgão autuador — como Detran, prefeituras e Polícia Rodoviária Federal — e devem ser aplicados em sinalização, engenharia de tráfego, fiscalização, educação no trânsito e programas sociais de habilitação.
Os outros 5% são destinados ao Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), administrado pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).
Dados do Portal da Transparência do governo estadual mostram que o Detran-MS arrecada mais de R$ 20 milhões anuais com multas desde 2021. Em 2025, a arrecadação atingiu R$ 33,6 milhões, e a previsão para 2026 é superar R$ 38 milhões.
Maio Amarelo reforça alerta
Criado em 2011 após a Organização das Nações Unidas (ONU) lançar a Década de Ação para a Segurança no Trânsito, o Maio Amarelo é um movimento internacional voltado à conscientização para redução de acidentes e mortes.
No Brasil, a campanha é coordenada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) e busca mobilizar motoristas, motociclistas, ciclistas, passageiros e pedestres sobre a importância de atitudes responsáveis no trânsito.
A cor amarela simboliza atenção e advertência, em referência à sinalização de trânsito e ao alerta pela preservação da vida.

