Uma fiscalização realizada na última quinta-feira (14), no Centro de Campo Grande, resultou na apreensão de 1.294 medicamentos e insumos vencidos na Clínica Canela. Durante a ação, a enfermeira responsável técnica do local chegou a ser presa em flagrante, mas obteve liberdade provisória após audiência de custódia.
A inspeção ocorreu após uma denúncia formalizada no fim de março pela Eli Lilly, laboratório farmacêutico detentor do registro do Mounjaro (tirzepatida). A empresa acusou o estabelecimento de promover um “forte apelo ao uso indiscriminado” da substância e de cometer uma série de infrações sanitárias e publicitárias.
Na denúncia, que também foi encaminhada à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a farmacêutica apontou que a clínica comercializava, fornecia e administrava medicamentos com tirzepatida em total desacordo com as normas vigentes.
Os principais pontos levantados pela Eli Lilly foram:
- Venda de fórmulas manipuladas: Há suspeita de que o local comercializasse “protocolos de emagrecimento” utilizando tirzepatida manipulada, sem qualquer relação com o medicamento industrializado Mounjaro. A fabricante reforçou que vende o produto exclusivamente em canais autorizados e não fornece a substância para clínicas, farmácias de manipulação ou centros de estética.
- Aplicação incorreta: Enquanto o Mounjaro original é administrado por meio de canetas aplicadoras específicas, a clínica estaria utilizando seringas normais. A farmacêutica alertou para os riscos de dosagens incorretas e do uso de ampolas, formato que a empresa sequer comercializa no Brasil.
- Publicidade ilegal para o público leigo: A legislação brasileira proíbe a propaganda de medicamentos sob prescrição médica para o público geral, restringindo-a a publicações técnicas para profissionais de saúde. Segundo a denúncia, a clínica usava as redes sociais para incentivar o consumo com frases como “O que você faz quando te dá fome? Eu: Vou no Canela” e “Um rodízio de sushi ou uma aplicação de Mounjaro?”.
- Falta de licenças e especialização: O estabelecimento não possuía licença sanitária atualizada nem o CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde). Além disso, foi apontado que o médico responsável, Jonathas Canela, não possui o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) na área em que atua, descumprindo as normas do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Durante a vistoria realizada pela Vigilância Sanitária e pelo Procon-MS, as equipes encontraram uma sala trancada nos fundos do estabelecimento. A enfermeira responsável ofereceu resistência para abrir o cômodo, alegando que o local guardava pertences pessoais do proprietário e que apenas ele tinha a chave.
Após os fiscais anunciarem que chamariam um chaveiro, um funcionário buscou as chaves na residência do médico. Dentro da sala, foram localizados 1.294 produtos com o prazo de validade expirado. A Decon (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes contra as Relações de Consumo) autuou os itens como impróprios para o consumo. Entre o material apreendido estavam:
- Medicamentos injetáveis (intramusculares e endovenosos);
- Implantes hormonais e psicotrópicos;
- Soro fisiológico e insumos hospitalares.
A polícia também constatou que o alvará de localização e funcionamento da clínica estava vencido desde o dia 15 de fevereiro.
A Clínica Canela
Em nota oficial, o estabelecimento informou que está colaborando com as investigações e negou qualquer prática ilegal. Segue o posicionamento na íntegra:
“A Clínica Canela informa que está colaborando integralmente com os órgãos competentes em procedimento de fiscalização ainda em andamento.
A instituição reforça que não fabrica, não manipula, não rotula e não comercializa medicamentos de forma irregular. Sua atuação é exclusivamente médica, com avaliação, acompanhamento e prescrição individualizada, quando indicada.
Não há venda casada. O paciente tem total liberdade para adquirir qualquer tratamento prescrito onde desejar, em estabelecimento regular de sua confiança.
Eventuais apontamentos administrativos ou operacionais estão sendo apurados internamente, com adoção imediata das medidas cabíveis e revisão dos protocolos internos.
A Clínica respeita o trabalho das autoridades, confia na apuração técnica dos fatos e reafirma seu compromisso com a ética, a segurança dos pacientes, a transparência e o cumprimento da legislação.”
O médico Jonathas Canela chegou a publicar um vídeo nas redes sociais afirmando que estava em viagem para São Paulo no momento da fiscalização e negando as irregularidades, mas a gravação foi apagada minutos depois.
CRM-MS e CFM
O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS) confirmou que enviou uma equipe técnica para acompanhar a diligência e informou que aguarda os relatórios oficiais dos demais órgãos para iniciar a análise técnica e administrativa. Por questões legais, a investigação interna corre sob sigilo ético.
Já o Conselho Federal de Medicina (CFM) esclareceu que atua apenas como instância recursal e não comenta casos concretos em andamento. O órgão reiterou que o título de especialista e o consequente RQE só são concedidos a profissionais que concluíram residência médica credenciada ou que foram aprovados em exames das sociedades de especialidade ligadas à Associação Médica Brasileira (AMB).
