O novo secretário municipal de Saúde de Campo Grande, Marcelo Vilela (PP), assumiu a pasta com a missão de reorganizar a rede pública e enfrentar os impasses recorrentes na relação com a Santa Casa.
Em entrevista nesta quinta-feira (16), ele afirmou que a prioridade é dar mais transparência à gestão financeira do hospital e reforçar o alinhamento com o Governo do Estado e o Ministério da Saúde para reduzir o impacto do subfinanciamento no atendimento.
Vilela retorna ao comando da secretaria após aceitar convite da prefeita Adriane Lopes (PP), com quem já atuou na gestão anterior, quando ela era vice-prefeita. Segundo o secretário, as conversas começaram em novembro, mas ele condicionou a decisão ao respaldo político para conduzir as mudanças.
“Eu estava relutando, porque eu preciso de apoio, principalmente apoio político. E o governador e o secretário de Estado também entraram com convencimento, falaram que iam me dar ajuda”, declarou.
De acordo com ele, a Secretaria Municipal de Saúde vinha operando com desalinhamento em relação ao Estado e apresentava fragilidade na condução técnica.
Crise na Santa Casa
Entre os pontos mais críticos citados pelo secretário está a crise na Santa Casa, marcada por colapso financeiro, atrasos salariais de médicos e equipes de enfermagem e redução de serviços. Vilela afirmou que, embora o município cumpra os repasses previstos em contrato, a administração interna da instituição não apresenta clareza suficiente sobre a destinação dos recursos.
A Prefeitura, por exemplo, repassou recentemente R$ 41 milhões ao hospital, mas os pagamentos aos médicos não foram regularizados.
“Eu preciso de transparência. Você recebeu 41 milhões, o que você fez com esses 41 milhões?”, questionou.
O secretário reconheceu que a Sesau tem limitações legais para realizar uma auditoria completa na gestão interna da entidade filantrópica.
“Eu reconheço isso [a falta de transparência]. Eles falam que têm transparência, entendeu? Mas eu não tenho uma auditoria que fala, realmente: eles estão fazendo isso com dinheiro. Faz isso e falta dinheiro.”
Como alternativa, Vilela informou que o Governo do Estado deve contratar uma auditoria externa ainda em 2026. Também está prevista a criação de uma comissão bipartida entre Estado e município para revisar a contratualização dos serviços de média e alta complexidade oferecidos pela Santa Casa.
A crise já teve reflexos diretos no atendimento e no funcionamento da unidade. A enfermagem chegou a deflagrar greve parcial, encerrada após o pagamento de valores pendentes. Já os médicos continuam com salários em atraso, mesmo após um acordo que previa o repasse de recursos e a retomada de serviços especializados interrompidos.
Segundo o secretário, os profissionais aceitaram aguardar o pagamento de duas parcelas atrasadas até o dia 30, referentes à quitação de janeiro. No total, são seis meses de atrasos, divididos para pagamento ao longo dos próximos três meses.
Regulação e fila de espera
Vilela informou ainda que a integração dos sistemas de regulação entre município e Estado, paralisada nos últimos três anos, foi retomada nesta semana. O objetivo é organizar a fila de espera, que hoje registra média de 160 pacientes aguardando vagas de média complexidade em Campo Grande.
Ele também ressaltou que a Santa Casa, historicamente utilizada como principal suporte para suprir a ausência de novos hospitais, enfrenta dificuldades para cumprir metas de atendimento, especialmente na alta complexidade.
“A alta complexidade aqui em Mato Grosso do SUS é feita na Santa Casa. São as cirurgias mais complexas, mais difíceis, com próteses, e ela não consegue cumprir o que a gente pede”, afirmou.
Orçamento insuficiente e emenda de R$ 20 milhões
Sobre o orçamento municipal da saúde, fixado em R$ 2,1 bilhões, o secretário afirmou que o valor não acompanha o tamanho da demanda. Segundo ele, embora a lei determine a aplicação mínima de 15% da arrecadação municipal no setor, na prática o custeio real para manter o sistema funciona entre 28% e 30%.
Como reforço imediato, Vilela aguarda o recebimento de uma emenda de R$ 20 milhões destinada pela senadora Tereza Cristina, que será usada para custeio e compra de medicamentos. A aplicação, no entanto, depende de aprovação da Comissão Intergestores Bipartite (CIB).
“Se eu utilizo sem esse processo ordinário, dá problema administrativo no meu CPF. O que eu tenho que fazer como gestor é cobrar a celeridade”, disse.
Cobrança ao MPMS
Em reunião com o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Marcelo Vilela afirmou ter cobrado mais transparência da Santa Casa e reforçou que o município não tem autonomia para intervir diretamente na gestão dos recursos internos do hospital
Segundo ele, cabe ao MPMS, por meio das promotorias responsáveis pela fiscalização das instituições filantrópicas, atuar para garantir que o dinheiro público seja aplicado de forma adequada e com impacto direto no atendimento à população
“Quem tem essa autonomia para fiscalizar eles é o próprio Ministério Público, através de uma promotoria, entendeu? Que vê as instituições filantrópicas. Então, a gente não tem essa governabilidade. Eu falei isso no Ministério Público, eu preciso de transparência”, concluiu.
