A expansão da monocultura de eucalipto na região leste de Mato Grosso do Sul tem provocado mudanças significativas na dinâmica social, econômica e ambiental de comunidades rurais, especialmente no município de Três Lagoas. É o que aponta um estudo desenvolvido pelas geógrafas Marine Dubos-Raoul e Rosemeire Aparecida de Almeida, que analisou os efeitos da consolidação da cadeia produtiva da celulose sobre o território.
A pesquisa concentrou-se nas comunidades de Arapuá e Garcias, tradicionalmente ocupadas por pequenos produtores rurais e trabalhadores ligados à pecuária. Segundo as pesquisadoras, a partir de 2007, o avanço da compra e do arrendamento de grandes propriedades para o cultivo de eucalipto substituiu gradualmente áreas de pecuária extensiva, alterando a organização econômica e social dessas localidades.
Com base em entrevistas realizadas com moradores, o levantamento aponta que a redução dos empregos permanentes no campo acelerou o êxodo rural. Muitas famílias deixaram as comunidades em direção às periferias de cidades do chamado Vale da Celulose e também para Campo Grande, em busca de oportunidades de trabalho. Como consequência, escolas registraram queda no número de alunos, estabelecimentos comerciais reduziram suas atividades e parte da vida comunitária construída ao longo de décadas perdeu força.
Efeitos sobre o meio ambiente
Além das mudanças sociais, o estudo reúne relatos sobre impactos ambientais percebidos pelos moradores. Entre eles estão a redução da biodiversidade, alterações na paisagem, diminuição da presença de animais silvestres e possíveis reflexos sobre os recursos hídricos. As pesquisadoras ressaltam que essas observações fazem parte da experiência cotidiana das comunidades e compõem a análise dos efeitos territoriais da atividade florestal.
Durante apresentação no encontro “Mulheres Camponesas do Bolsão”, realizado no último dia 11, a pesquisadora Marine Dubos-Raoul destacou o aumento da mortalidade de animais silvestres nas rodovias da região. Dados apresentados mostram que três das sete rodovias brasileiras com maior número de atropelamentos de fauna estão em Mato Grosso do Sul: as BRs-262 e 163 e a MS-040.
Na BR-262, considerada um dos principais corredores logísticos da indústria da celulose, são registrados mais de dois mil atropelamentos de animais por ano, média superior a cinco ocorrências diárias. Espécies de grande porte, como a anta, estão entre as mais afetadas.
Segundo a pesquisadora, o aumento dos atropelamentos pode estar relacionado ao desequilíbrio provocado pela transformação da paisagem. Ela afirma que a dificuldade da fauna em encontrar alimento e abrigo faz com que os animais atravessem com maior frequência as rodovias.
Alterações no ecossistema
A pesquisa também aponta que diversos animais silvestres passaram a buscar alimento em quintais, pequenas propriedades e até áreas urbanas, comportamento interpretado como consequência da perda de habitat e da redução da disponibilidade de recursos naturais.
Outro tema abordado é a mortandade de abelhas. O estudo reúne relatos de produtores rurais e apicultores que atribuem a perda de colmeias à deriva de defensivos agrícolas utilizados em áreas de silvicultura.
Entre os casos mencionados estão a perda de 120 colmeias e, no ano seguinte, de outras 82 no assentamento PA 20 de Março, em Três Lagoas; a morte de 160 caixas de abelhas em Ribas do Rio Pardo; cerca de 290 colmeias em Santa Rita do Pardo desde 2020; além de registros recorrentes no assentamento Alecrim, em Selvíria, desde 2014.
Concentração fundiária
As autoras também observam que a expansão do complexo florestal favoreceu a concentração do uso da terra em grandes propriedades voltadas ao cultivo de eucalipto, reduzindo a diversidade das atividades agropecuárias que antes predominavam na região.
Embora reconheça que a indústria da celulose impulsionou investimentos e indicadores econômicos em Três Lagoas e municípios vizinhos, o estudo conclui que esse crescimento ocorreu acompanhado de impactos sociais, culturais e ambientais percebidos pelas comunidades pesquisadas.
O trabalho aponta que a expansão da monocultura reconfigurou o território, promovendo simultaneamente desenvolvimento econômico e perda de referências históricas e culturais do meio rural.
Mapeamentos utilizados pelas pesquisadoras mostram que o avanço do eucalipto foi especialmente intenso entre 2008 e 2018 no distrito de Arapuá, enquanto áreas ocupadas por pequenos produtores e pelo assentamento 20 de Março permaneceram como uma das principais barreiras à continuidade da expansão.
Sobre a questão hídrica, Marine Dubos-Raoul afirma que não é possível estabelecer, de forma isolada, que o cultivo de eucalipto seja responsável pelo desaparecimento de nascentes. No entanto, sustenta que a expansão em larga escala da cultura sobre áreas de Cerrado anteriormente desmatadas, somada às condições climáticas naturalmente mais secas da região, contribui para intensificar o cenário de escassez hídrica.
Segundo a pesquisadora, essa avaliação é baseada no cruzamento de imagens de satélite, observações de campo, dados hidrológicos e nos relatos de moradores que acompanham há décadas as transformações da paisagem na região leste de Mato Grosso do Sul.
