Pressão psicológica, descontos considerados indevidos, ameaças veladas e condições insalubres de trabalho estão entre as denúncias feitas por motoristas do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande. A empresa é alvo de inquérito civil que apura possíveis irregularidades trabalhistas.
A investigação é conduzida pelo Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul, que instaurou o procedimento em dezembro de 2025. Desde então, as empresas que integram o consórcio foram notificadas, mas, segundo trabalhadores, os problemas persistem.
“Quando quebra, a gente paga”
Rafael* trabalha há cerca de um mês nas linhas do transporte coletivo. Segundo ele, o período foi suficiente para afetar sua saúde emocional. O motorista afirma que avarias nos ônibus estariam sendo descontadas diretamente na folha de pagamento.
“Se o pneu estoura por causa dos buracos na rua, quem paga somos nós”, relatou. De acordo com ele, além das cobranças, há orientações para que os funcionários não peçam demissão enquanto houver valores pendentes. “Dizem que, se sair, a dívida vai acompanhar.”
O trabalhador afirma que o clima entre os colegas é de desânimo. “Vejo motoristas chorando, implorando para não descontarem prejuízos que não foram causados por eles.”
Durante a CPI que investigou o contrato do transporte coletivo, houve relatos de que até acidentes eram atribuídos financeiramente aos condutores.
Irregularidades sob investigação
As denúncias apresentadas ao MPT incluem seis frentes principais:
- Fraudes no registro de ponto e horas extras não contabilizadas;
- Não pagamento de horas extras registradas;
- Descontos salariais indevidos;
- Veículos em condições precárias, com problemas de ergonomia e exposição a ruídos, em desacordo com a NR-17;
- Assédio moral e sobrecarga de funções;
- Jornadas exaustivas sem intervalos adequados para descanso e alimentação.
O procedimento teve início após depoimentos prestados na CPI realizada em junho de 2025. O caso evoluiu de notícia de fato para procedimento preparatório e, posteriormente, para inquérito civil.
Jornadas prolongadas e falta de estrutura
Motoristas relatam que chegam a trabalhar até 10 horas diárias ao volante, muitas vezes sem pausas. “Fico até cinco horas direto sem poder ir ao banheiro”, disse Rafael*. Ele também aponta problemas ergonômicos nos veículos e exposição ao calor excessivo.
O trabalhador afirmou que foi contratado com promessa de carga semanal de 44 horas, mas diz que a rotina atual compromete a convivência familiar. “Entro às 14h e saio meia-noite. Não tenho mais tempo para nada.”
Punições e “gancho”
Segundo os relatos, atrasos ou ocorrências no trajeto podem resultar em punições internas conhecidas como “gancho”, que implicariam suspensão de pagamentos por tempo indeterminado.
Um dos casos citados envolve um motorista que teria passado por um quebra-molas sem sinalização adequada durante a noite. Ele teria sido penalizado financeiramente. As cobranças, conforme os denunciantes, são comunicadas por mensagens, mas os trabalhadores não teriam acesso digital aos orçamentos apresentados.
Saúde mental afetada
Além das dificuldades operacionais, os motoristas relatam falta de apoio psicológico após situações traumáticas. Um condutor contou que quase atropelou um homem que se lançou à frente do ônibus e, mesmo abalado, foi orientado a continuar a linha normalmente.
Mariano*, funcionário há quatro meses, afirma que desenvolveu crises de ansiedade. “Depois de incidentes, entro no ônibus tremendo. Parece um pesadelo constante”, disse. Ele reforça que não há acompanhamento psicológico oferecido pela empresa.
Empresa notificada
O MPT-MS notificou o Consórcio Guaicurus para apresentar documentos atualizados, como o LTCAT (Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho) e o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), já que os anteriores estariam com prazo de revisão vencido.
A empresa foi procurada para se manifestar sobre as denúncias, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para posicionamento.

