A Justiça Federal manteve o bloqueio de bens do empresário Sérgio Longen, presidente da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), investigado na Operação Fantoche, deflagrada pela Polícia Federal em 2019.
Na ocasião, o juiz federal responsável pelo caso determinou o bloqueio de bens de 24 pessoas e instituições, incluindo Longen, até atingir o montante de R$ 400 milhões — valor estimado do suposto desvio de recursos do Sesi em diferentes estados.
A operação apura crimes contra a administração pública, fraudes em licitações, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Entre os bens atingidos pela decisão judicial está um imóvel localizado em Varginha (MG).
A propriedade, no entanto, foi alvo de recurso apresentado pela esposa do empresário, que pediu o desbloqueio do bem alegando que ele foi recebido como herança de sua mãe, falecida em 2021. A defesa argumentou que, embora o casamento seja em regime de comunhão universal de bens, o contrato matrimonial exclui patrimônio recebido por herança.
Em outubro do ano passado, o juiz Jaime Travassos Sarinho, da 4ª Vara Federal do Recife, onde o processo tramita, decidiu liberar apenas a fração correspondente ao imóvel em Varginha, sendo que 1/4 da propriedade pertence à esposa de Longen. Os demais bens permanecem bloqueados.
A defesa do empresário foi procurada para comentar a manutenção do bloqueio mesmo após sete anos da operação, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
Investigação
Sérgio Longen é citado nas investigações que também envolveram gestores do Serviço Social da Indústria (Sesi) nos estados de Alagoas, Paraíba, Minas Gerais e Pernambuco, além do Departamento Nacional da entidade.
Em Mato Grosso do Sul, o foco da apuração recaiu sobre contratos firmados pelo Sesi entre 2010 e 2014. A Polícia Federal e o Tribunal de Contas da União (TCU) analisaram repasses milionários destinados a organizações não governamentais ligadas a um grupo empresarial de Pernambuco.
Durante a operação, 36 pessoas tiveram o sigilo bancário quebrado e outras 24 tiveram bens bloqueados, até o limite de R$ 400 milhões. Na época, um endereço ligado ao empresário e a sede da Casa da Indústria foram alvos de mandados de busca e apreensão.
Entre os projetos analisados estão iniciativas culturais como “Sesi Bonecos do Mundo”, “Cine Sesi” e “Na Ponta da Língua”. Segundo as investigações, os custos desses eventos seriam significativamente superiores aos registrados em estados com parques industriais maiores, como São Paulo, o que chamou a atenção dos órgãos de controle e levou o TCU a encaminhar os dados à Polícia Federal.
À época das investigações, Longen negou irregularidades e afirmou que os projetos passaram por auditorias de órgãos de controle.
Suposto esquema
De acordo com a Polícia Federal, entidades do sistema industrial repassariam recursos públicos a ONGs apontadas como de fachada por meio de inexigibilidade de licitação, sob a justificativa de exclusividade na prestação dos serviços.
Essas organizações, por sua vez, terceirizariam a execução dos projetos a produtoras, com valores considerados superfaturados pelos investigadores.
Em Mato Grosso do Sul, contratos que somam R$ 1.502.944,07 firmados pela Fiems também são investigados pelo Ministério Público Estadual (MPMS).
Conforme dados do portal de transparência do sistema Fiems, a entidade assinou três contratos entre julho de 2022 e outubro de 2023 com duas empresas sediadas em Campo Grande.
A empresa Souza Alves & Cia Ltda. – EPP, conhecida como Multifer, firmou em julho de 2022 contrato de R$ 641.978,17 para fornecimento de materiais elétricos, valor que já inclui aditivo de R$ 127.178,17 autorizado durante a vigência.
Em dezembro do mesmo ano, a mesma empresa, com capital social de R$ 300 mil, assinou novo contrato de R$ 455.965,90 para fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs).
Já em outubro de 2023, a Inovaseg Comercial de Equipamentos e Serviços Ltda. firmou contrato de R$ 405 mil para fornecer materiais elétricos ao Senai.
As duas empresas têm como atividade principal o comércio de ferragens e ferramentas e possuem os mesmos sócios: Diego de Souza Alves e Evanildo Albuquerque da Rosa, conforme registros públicos da Receita Federal.
O inquérito foi instaurado em 9 de fevereiro pelo promotor de Justiça Humberto Lapa Ferri. Os detalhes do processo tramitam sob sigilo.
