Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam que o número de mulheres internadas por alcoolismo tem crescido nos últimos anos em Campo Grande. Embora os homens ainda liderem com ampla maioria os registros de hospitalizações e mortes relacionadas ao consumo de álcool, a participação feminina nos casos vem aumentando de forma significativa.
Em um período de 17 anos, a proporção de mulheres internadas passou de cerca de 9% para 25% do total, praticamente triplicando. Em 2025, das 44 internações registradas por transtornos relacionados ao álcool na Capital, 11 foram de pacientes do sexo feminino. No início da série histórica, entre 2008 e 2012, elas representavam em média apenas 9,4% das internações.
Em 2009, por exemplo — ano com o maior número absoluto de registros, com 493 hospitalizações — apenas 45 eram de mulheres. A mudança no perfil começou a se intensificar a partir de 2020 e ganhou força em 2023, quando elas passaram a representar 15% dos internados. Dois anos depois, chegaram a um quarto do total.
Apesar do aumento proporcional entre mulheres, os homens ainda concentram a maioria dos casos, respondendo por 88,7% de todas as internações registradas no período analisado. O crescimento feminino, porém, aponta que elas estão adoecendo mais ou sendo encaminhadas para tratamento hospitalar com maior frequência.
Mortalidade preocupa
Mesmo com menos internações, a evolução para óbito em doenças relacionadas ao álcool tem sido mais expressiva entre mulheres em alguns casos. Isso é observado especialmente nas mortes por doença alcoólica do fígado.
Em 2020 e 2022 foram registrados sete óbitos femininos por essa causa em cada ano, o maior número absoluto desde o início da série. Em 2025, seis mulheres morreram em decorrência da doença.
Especialistas apontam que fatores biológicos podem aumentar a vulnerabilidade feminina aos danos provocados pelo álcool. Estudos indicam que mulheres possuem menor atividade da enzima álcool desidrogenase gástrica, responsável por metabolizar o álcool, além de menor proporção de água no organismo. Esses fatores elevam a concentração de álcool no sangue após o consumo.
Na literatura médica, esse processo é conhecido como “telescoping”, termo utilizado para descrever a progressão mais rápida das mulheres para dependência e complicações graves relacionadas ao álcool.
Tendência nacional
O crescimento das internações femininas não é exclusivo da Capital. Pesquisas nacionais e internacionais mostram aumento de atendimentos de emergência, hospitalizações e mortes relacionadas ao álcool entre mulheres nas últimas duas décadas.
Estudo publicado em 2024 no periódico científico JAMA Health Forum, conduzido pela Universidade de Pittsburgh com dados de mais de 14 milhões de pacientes, apontou que mulheres entre 40 e 64 anos apresentaram os maiores aumentos mensais em complicações associadas ao consumo de álcool, incluindo doença hepática alcoólica.
No Brasil, dados do sistema de vigilância do Ministério da Saúde, o Vigitel, mostram que o consumo abusivo de álcool entre mulheres praticamente dobrou nas últimas duas décadas, passando de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023.
Entre os fatores apontados por especialistas estão pressões sociais, demandas profissionais e domésticas, desigualdade de gênero e responsabilidades ligadas à maternidade. A pandemia de covid-19 também é citada como elemento que intensificou esse comportamento.
Outro ponto observado por pesquisadores é a estratégia de marketing da indústria de bebidas, que passou a direcionar campanhas específicas ao público feminino, muitas vezes associadas a discursos de empoderamento.
Situação em Mato Grosso do Sul
Em nível estadual, Mato Grosso do Sul apresentou a sétima maior taxa de mortalidade hospitalar por doença alcoólica do fígado entre as 27 unidades da federação.
O índice foi de 19,41 óbitos a cada 100 internações — acima da média nacional, de 17,67. Considerando apenas os homens, o estado ocupa a oitava posição, com taxa de 19,27 mortes por 100 internações, também superior à média brasileira masculina de 17,81. Nesse recorte, foram registradas 4.234 internações e 816 óbitos.
Entre mulheres, o estado contabilizou 131 notificações, ficando na 18ª colocação no ranking nacional. Os maiores volumes de casos femininos foram registrados em Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais.
No país, as maiores taxas gerais de mortalidade foram observadas no Amapá, Sergipe e Rio Grande do Norte, enquanto Espírito Santo, Piauí e Acre apresentaram os menores índices.
Acesso ao tratamento
Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que apenas uma em cada 18 mulheres diagnosticadas com transtorno por uso de substâncias está em tratamento, proporção bem inferior à dos homens, que é de um em cada sete.
Especialistas apontam que fatores como culpa, vergonha e redes de apoio mais frágeis dificultam a busca por tratamento entre mulheres. Pesquisas também indicam que muitas não se sentem seguras em espaços mistos de recuperação, relatando episódios de assédio ou discriminação.
No Senado Federal tramita o Projeto de Lei 2.880/2023, que propõe a criação de um programa nacional de saúde voltado especificamente ao tratamento de mulheres com dependência alcoólica.
Onde buscar ajuda em Campo Grande
Na rede pública de saúde da Capital, o tratamento é oferecido pelos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), que funcionam em regime de “porta aberta”, permitindo que qualquer pessoa procure atendimento sem necessidade de encaminhamento.
A cidade conta com duas unidades especializadas. Uma delas funciona na Rua Joaquim Murtinho, no Bairro Antônio Vendas, com atendimento de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h.
Outra unidade, inaugurada em 2023 no Bairro Guanandi, opera 24 horas por dia e dispõe de leitos para acolhimento noturno e desintoxicação, divididos entre alas masculina e feminina, atendendo pessoas a partir de 16 anos.
Para situações que exigem internação hospitalar de curta permanência, a rede pública também oferece leitos para desintoxicação no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul.
Ao chegar a um dos centros de atendimento, o paciente passa por uma escuta inicial realizada por profissionais da equipe, que avaliam a necessidade de acompanhamento ambulatorial, acolhimento para desintoxicação ou encaminhamento para outros serviços da rede, como unidades de pronto atendimento ou hospitais. O tratamento pode incluir consultas médicas, psicoterapia e participação em grupos terapêuticos.

