Duas semanas após a morte do soldado Dhiogo Melo Rodrigues, atingido por um disparo de arma de fogo dentro do quartel do Comando Militar do Oeste (CMO), a família questiona a versão oficial apresentada pelas autoridades e levanta suspeitas sobre falhas tanto no socorro prestado quanto na apuração do caso.
Irmão de Dhiogo e profissional da área de perícia policial, o familiar afirma que há omissões no prontuário médico e atraso injustificado na liberação de documentos considerados essenciais para esclarecer as circunstâncias da morte. Segundo ele, a família foi informada inicialmente de que o militar teria sofrido um acidente.
Ele relata que o corpo chegou ao hospital acondicionado em um saco e que havia a intenção de encaminhá-lo diretamente ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO), procedimento adotado em casos de morte natural. “Isso não poderia acontecer. Toda morte violenta ou sem esclarecimento deve ser encaminhada ao Imol, onde é realizada a necrópsia para determinar a causa da morte”, afirmou.
Diante da situação, a família não autorizou o envio ao SVO e interveio para que o corpo fosse levado ao Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol). De acordo com o irmão, o próprio prontuário médico indica que esse não era o procedimento inicialmente previsto. “O encaminhamento ao Imol foi feito à mão, o que mostra que ele não seria enviado para lá”, disse.
Outro ponto central das dúvidas envolve o socorro prestado dentro do quartel. Conforme a versão apresentada, o local não teria sido isolado porque Dhiogo ainda estaria com vida, o que justificaria a retirada do corpo para atendimento médico. No entanto, o familiar afirma que não há qualquer registro de procedimentos de emergência.
“No prontuário não consta absolutamente nada: nenhum acesso venoso, nenhuma medicação, nenhuma tentativa de reanimação, uso de oxigênio ou massagem cardíaca. Nada”, afirmou. Segundo ele, se houve socorro, não foi documentado; se não houve, o local deveria ter sido preservado para a realização de perícia.
O irmão também questiona as condições do transporte da vítima até o hospital, considerando a distância do quartel, e aponta falta de preparo da unidade militar para lidar com uma situação de emergência, diferentemente de serviços especializados como o Samu ou o Corpo de Bombeiros.
Além das falhas apontadas no atendimento, a família denuncia demora excessiva na apuração. O inquérito policial, que normalmente tem prazo de até 30 dias, já ultrapassa 90 dias. Mesmo após acionamento do Ministério Público e solicitações formais com base na Lei de Acesso à Informação, os documentos seguem sem ser disponibilizados.
“Agora eles pediram mais 20 dias para entregar o prontuário médico. Que tipo de procedimento demora todo esse tempo para ser documentado? Isso gera muita desconfiança”, afirmou.
Para o familiar, a divulgação do prontuário é fundamental para esclarecer se Dhiogo morreu no local ou durante o transporte e, consequentemente, se houve violação de protocolos legais. “Eu já sei o que aconteceu porque tive acesso informal, mas quero que isso venha a público de forma legal. Se não houve socorro, mexeram no local de forma ilegal, o que é previsto no Código de Processo Penal”, concluiu.
A reportagem tentou contato com o Ministério Público Militar estadual, mas não obteve resposta até o fechamento do texto.
