O agronegócio de Mato Grosso do Sul registrou forte aumento nos pedidos de recuperação judicial nos últimos anos, reflexo do avanço da inadimplência entre produtores rurais junto a bancos e fornecedores. Dados da Serasa Experian apontam crescimento expressivo no número de empresas do setor que recorreram à Justiça para renegociar dívidas.
Em 2025, foram registrados 216 pedidos de recuperação judicial no estado. O número representa aumento de 118% em relação a 2024 e é 756% superior ao volume registrado em 2023.
Segundo Frederico Poleto, diretor de ciência de dados Agro da Serasa Experian, diversos fatores contribuíram para a escalada dos pedidos. Entre eles estão o aumento da taxa Selic e mudanças no mercado internacional que provocaram queda nos preços das commodities.
O cenário também é influenciado pela valorização do real e por instabilidades externas, como conflitos em países produtores de petróleo e fertilizantes, fatores que elevam os custos de produção e reduzem as margens de lucro dos produtores rurais.
Além das variáveis econômicas, questões climáticas também impactam o setor. Poleto explica que culturas como a soja registraram preços historicamente elevados entre 2020 e 2022, período em que os custos de produção estavam mais baixos.
A partir de 2022, no entanto, houve forte recuo nos preços, provocado pelo crescimento da oferta em ritmo superior ao da demanda. Ao mesmo tempo, os custos subiram impulsionados por fatores como conflitos internacionais, variações cambiais e inflação.
Mesmo com níveis satisfatórios de produtividade, o aumento dos custos e a queda das cotações comprimiram as margens, sobretudo para produtores que trabalham com áreas arrendadas ou dependem de financiamento para custear a produção.
Os números refletem essa mudança no cenário. Em 2023, Mato Grosso do Sul registrou 25 pedidos de recuperação judicial no agronegócio. No ano seguinte, o total subiu para 99. Já em 2025, alcançou 216 solicitações.
Outro fator apontado por especialistas é a forma de gestão adotada durante o período de maior rentabilidade do setor. Muitos produtores aproveitaram os anos de preços elevados para expandir operações, adquirindo terras e equipamentos, mas sem reservar recursos para enfrentar momentos de queda no mercado.
Com isso, parte deles passou a recorrer à renegociação de dívidas e ao refinanciamento sucessivo de financiamentos, até chegar a uma situação em que a recuperação judicial se torna a única alternativa para reorganizar as finanças.
A ampliação do crédito rural nos últimos anos também contribuiu para o aumento da inadimplência. O volume maior de financiamentos permitiu que produtores com maior nível de risco tivessem acesso a recursos no sistema financeiro.
De acordo com a análise da Serasa Experian, a tendência é que esse cenário se ajuste nos próximos anos. A expectativa é que as instituições financeiras reduzam o ritmo de concessão de crédito enquanto os indicadores de inadimplência e de recuperações judiciais se estabilizam, movimento considerado comum nos ciclos do mercado financeiro.
