Em Mato Grosso do Sul, 215 estudantes de Medicina estão concluindo a graduação em instituições que obtiveram nota 2 no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), índice abaixo do mínimo considerado aceitável pelo Ministério da Educação (MEC).
Segundo o conselheiro federal Estevam Rivello, 2º secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM), 158 alunos que prestaram o exame são da Uniderp, em Campo Grande, e outros 57 da Unicesumar, em Corumbá. As mensalidades dos cursos nessas instituições giram em torno de R$ 15 mil.
Entre as universidades públicas do Estado, os resultados foram mais positivos. Na UFMS de Três Lagoas, que alcançou nota 5, 49 alunos se formaram. Na UFMS de Campo Grande, também com conceito máximo, 82 estudantes participaram da avaliação. A UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) obteve nota 5, com 72 alunos avaliados, enquanto a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) alcançou nota 4, com 35 formandos.
No cenário nacional, 13.871 estudantes estão se formando em cursos de Medicina que receberam conceitos 1 ou 2 no Enamed.
Para Rivello, os dados confirmam um problema antigo apontado pelas entidades médicas. “O que o Governo Federal expôs é tudo aquilo que vem sendo alertado há cerca de duas décadas. Até meados dos anos 1990, a educação médica era majoritariamente pública e de qualidade. Hoje, cerca de 70% das faculdades de Medicina são privadas e muitas apresentam formação deficiente”, afirmou.
O conselheiro destacou ainda que a nota do curso não reflete, necessariamente, o desempenho individual de todos os alunos. O MEC estabelece pontos de corte por instituição. Como exemplo, ele citou que, na UFMS, mais de 90% da turma precisava obter nota acima de 6 para alcançar conceito 5, meta superada por 92,7% dos estudantes. Já na Uniderp, apenas 58,2% dos alunos atingiram esse patamar.
De acordo com o CFM, cerca de 45 mil médicos se formam anualmente no país, que já conta com aproximadamente 650 mil profissionais registrados nos Conselhos Regionais de Medicina.
Em nota divulgada anteriormente, a Unicesumar afirmou que, desde a criação do curso, em 2020, recebe conceito 5 nas avaliações do MEC. A instituição ressaltou que, no Enamed, além do conteúdo oferecido, o empenho do aluno na realização da prova influencia o resultado final. Informou ainda que iniciou uma análise interna sobre os índices obtidos e que já implementou melhorias para manter a qualidade do ensino.
O Conselho Federal de Medicina defende medidas mais rígidas e avalia a possibilidade de impedir o registro profissional de estudantes reprovados no Enamed. Para Rivello, o exame atual é insuficiente por se basear apenas em prova escrita. “Foram 100 questões, com 10 anuladas e três repetidas. Quem acaba sofrendo é a população, porque profissionais mal formados atuam na linha de frente do atendimento. O direito à vida deve se sobrepor a qualquer outro”, enfatizou.
Tramita no Senado o Projeto de Lei nº 2.294/2024, que cria o Profimed (Exame Nacional de Proficiência em Medicina). Caso aprovado, o CFM ficará responsável pela aplicação de provas teóricas e práticas. “É necessário aprimorar o Enamed, incluindo avaliação prática, como ocorre em outros países e na residência médica. O Profimed funcionaria como um filtro, impedindo o registro de quem não demonstrar proficiência mínima”, concluiu Rivello.
