O braço digital do Banco Master, o Will Bank — que teve a liquidação extrajudicial decretada em 21 de janeiro — aparece como meio utilizado por criminosos no golpe conhecido como “falso advogado” em Mato Grosso do Sul.
Nos últimos dois meses, ao menos duas vítimas no Estado ingressaram com ações judiciais pedindo reparação por danos materiais e morais após transferirem dinheiro a golpistas por meio de contas vinculadas ao Will Bank, que operava sob a razão social de Will Financeira, classificada como fintech.
Em um dos casos, uma mulher teve prejuízo de R$ 248 mil. Em outro, um homem perdeu R$ 2,5 mil. Ambos foram induzidos a realizar transferências após serem abordados por pessoas que se passaram por seus advogados, apresentando documentos falsificados de decisões judiciais.
O golpe segue um roteiro semelhante: inicialmente, os criminosos entram em contato com a vítima trazendo uma suposta “boa notícia”, informando que ela teria vencido uma ação judicial real e estaria prestes a receber uma indenização. Em seguida, condicionam a liberação do valor ao pagamento antecipado de honorários, taxas e outras despesas. Quando a fraude é percebida, o dinheiro já foi transferido.
No caso da vítima que perdeu R$ 248 mil em Campo Grande, a defesa aponta falhas graves nos mecanismos de controle e fiscalização da instituição financeira, destacando a facilidade para abertura de contas, o que teria favorecido a atuação dos estelionatários. O valor perdido representa apenas uma parte dos R$ 51 mil que ela teria a receber no processo que deu origem à abordagem fraudulenta.
Além da Will Financeira, outras empresas também mantinham contas que receberam recursos do golpe, como Nu Pagamentos (Nubank) e SAQ. Segundo a advogada da vítima, essas instituições teriam violado normas do Banco Central, como a Resolução nº 4.753/2019 e a Circular nº 3.978/2020, que estabelecem procedimentos rigorosos de “Conheça seu Cliente” (KYC) para prevenção à lavagem de dinheiro e a atividades ilícitas.
Na ação judicial, a defesa pede a devolução integral do valor perdido, além de R$ 30 mil por danos morais. A argumentação destaca ainda a existência de conta em nome de uma suposta “empresa fantasma”, o que, segundo os advogados, comprova negligência na análise cadastral e no monitoramento das operações financeiras. O nome da vítima é mantido em sigilo.
No segundo caso, o homem que perdeu R$ 2,5 mil buscava receber uma indenização de R$ 22,1 mil. Ele pede a restituição em dobro do valor transferido, além de indenização por danos morais. A defesa sustenta que houve negligência na abertura e fiscalização da conta usada para receber os recursos ilícitos, ressaltando que a jurisprudência reconhece a responsabilidade das instituições que não adotam controles eficazes.
Até o momento, não há decisão judicial nos processos. A Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS) tem atuado no enfrentamento desse tipo de golpe. Além de manter um canal permanente para recebimento de denúncias, a entidade ajuizou ação civil pública e obteve, na Justiça Federal, decisão que determinou às operadoras de telefonia a criação de um canal específico para bloqueio imediato de linhas usadas em fraudes desse tipo.
Liquidação do Will Bank
A liquidação extrajudicial do Will Bank foi decretada pelo Banco Central do Brasil em 21 de janeiro, encerrando de forma definitiva as atividades da instituição. A medida foi motivada por problemas financeiros, operacionais e de governança, considerados suficientes para inviabilizar a continuidade das operações.
Entre os fatores que levaram à decisão estão a ligação com o Banco Master — controlador da Will Financeira e que já havia tido sua liquidação decretada em novembro de 2025 —, a deterioração da situação econômico-financeira, a insolvência e o descumprimento de compromissos no sistema de pagamentos.
Também pesou contra a instituição o bloqueio de sua participação no arranjo de pagamentos da Mastercard, o que resultou na suspensão do uso de seus cartões e agravou ainda mais a crise que culminou no encerramento das atividades.