O desembargador Vladimir Abreu da Silva deverá permanecer afastado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) até 4 de fevereiro de 2027. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) oficializou o resultado do julgamento que prorrogou por mais 140 dias o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o magistrado e manteve a suspensão cautelar de suas funções.
Investigado na Operação Ultima Ratio por suspeitas de corrupção e venda de decisões judiciais, Vladimir está fora do tribunal desde outubro de 2024. O novo prazo começou a contar em 17 de setembro e poderá ser alterado caso o Conselho delibere novamente sobre a medida.
A decisão foi unânime na 13ª Sessão Virtual de 2026, encerrada em 18 de setembro, no julgamento do PAD nº 0000095-49.2026.2.00.0000.
“O Conselho, por unanimidade, aprovou questão de ordem para prorrogar o prazo de conclusão do presente PAD por mais 140 dias, a contar de 17/9/2026, mantido o afastamento cautelar do Desembargador”, informa a proclamação do resultado.
Sob relatoria do conselheiro Silvio Roberto Oliveira de Amorim Junior, o processo teve os votos de 13 integrantes do CNJ pela prorrogação. A conselheira Jaceguara Dantas declarou impedimento, enquanto Ulisses Rabaneda teve ausência justificada.
A deliberação amplia o período destinado à instrução do procedimento administrativo e preserva o afastamento durante a apuração. Não se trata de julgamento definitivo das acusações contra o desembargador.
Afastamento começou em 2024
Vladimir foi afastado em 24 de outubro de 2024, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Ultima Ratio para apurar um suposto esquema de negociação de decisões judiciais em Mato Grosso do Sul.
Na mesma ocasião, a medida atingiu os desembargadores Alexandre Aguiar Bastos, Sideni Soncini Pimentel, Marcos José de Brito Rodrigues e Sérgio Fernandes Martins, então presidente do TJMS.
As investigações abrangem suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsificação de documentos e venda de decisões. Entre os investigados estão magistrados, advogados, empresários e outras pessoas relacionadas aos episódios apurados.
O afastamento inicial foi determinado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que também estabeleceu restrições de contato entre investigados e proibiu o acesso às dependências do tribunal. Em relação a Vladimir, a suspensão foi renovada sucessivamente e passou a ser examinada também pelo CNJ na esfera disciplinar.
Relatório da PF
Em 20 de março de 2026, a Polícia Federal concluiu um relatório de 711 páginas referente a uma das principais frentes da operação. O documento, vinculado ao Inquérito nº 1.483, incluiu Vladimir entre os desembargadores indiciados e foi encaminhado às autoridades responsáveis pela análise das conclusões policiais.
Também foram citados no relatório Sideni Soncini Pimentel, Julio Roberto Siqueira Cardoso, Alexandre Aguiar Bastos, Sérgio Fernandes Martins, Divoncir Schreiner Maran e Marcos José de Brito Rodrigues.
O indiciamento expressa a avaliação da autoridade policial sobre a existência de elementos que atribuam crimes aos investigados. A medida não equivale a uma condenação, e eventual responsabilização criminal depende da atuação do Ministério Público e de decisão judicial.
Outra frente da Ultima Ratio, ligada ao Inquérito nº 1.595, continuou em andamento para aprofundar fatos não encerrados no relatório de março.
Disputas por fazendas
Entre os episódios relacionados a Vladimir estão processos envolvendo propriedades rurais de alto valor. Um deles trata da Fazenda Pauliceia, em Maracaju, avaliada em aproximadamente R$ 85 milhões.
Segundo a investigação, decisões judiciais teriam beneficiado interesses ligados ao conselheiro Osmar Domingues Jeronymo, do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), e a familiares dele.
A Polícia Federal aponta suspeitas de falsificação de documentos e sustenta que decisões teriam contribuído para transferir a propriedade por uma quantia muito inferior ao valor atribuído ao imóvel. Vladimir é mencionado por sua participação no julgamento de recursos relativos à disputa.
Outro episódio envolve a Fazenda Santo Antônio, em Corumbá. Nesse caso, os investigadores analisaram decisões de Vladimir, Sideni Pimentel e Julio Siqueira em processo relacionado à propriedade e à liberação de valores milionários. A PF afirma ter identificado elementos que indicariam pagamento de vantagens indevidas associado às decisões.
A Fazenda Vai Quem Quer, também em Corumbá, aparece em outra frente da apuração. Com aproximadamente 5,6 mil hectares e valor estimado em mais de R$ 15 milhões, a área foi objeto de uma disputa na qual Vladimir, Sideni e Alexandre Bastos participaram de julgamento que alterou uma decisão de primeira instância.
Mensagens apreendidas levaram os investigadores a suspeitar de uma articulação anterior ao julgamento para modificar o resultado do processo. Essas conclusões permanecem sujeitas à análise judicial e não representam condenação dos envolvidos.
Proximidade com advogado
A relação entre Vladimir e o advogado Rodrigo Gonçalves Pimentel, filho do desembargador aposentado Sideni Soncini Pimentel, também foi examinada pela Polícia Federal.
Os investigadores identificaram encontros, viagens e pescarias com a participação dos dois, além de processos julgados por Vladimir nos quais Rodrigo atuava como advogado.
Na avaliação da PF, essa proximidade passou a ser relevante para a apuração de possíveis conflitos de interesse e para o exame das decisões consideradas suspeitas. A investigação também identificou vínculos profissionais entre escritórios ligados a filhos de magistrados e advogados envolvidos no caso.
Pedidos envolvendo o filho
Outro episódio analisado diz respeito à atuação de Vladimir em benefício do filho, o advogado Marcus Vinícius Machado Abreu. Conforme mensagens apreendidas pela Polícia Federal, o desembargador procurou colegas do tribunal e pediu que recebessem o advogado em seus gabinetes.
As conversas estavam relacionadas a uma ação de aproximadamente R$ 16,9 milhões na qual Marcus Vinícius tinha interesse profissional. Os magistrados procurados receberam o advogado, mas os recursos referentes ao caso foram rejeitados.
O episódio foi incorporado à investigação sobre possível uso do cargo de desembargador para favorecer interesses particulares.

