Denúncia aponta pagamentos com recursos do SUS por serviços de digitalização de prontuários que não teriam sido prestados conforme o contrato
A Justiça de Mato Grosso do Sul recebeu denúncia contra a ex-presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras seis pessoas por um suposto esquema de desvio de R$ 1,97 milhão na contratação da empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços. Segundo o Ministério Público Estadual (MPMS), recursos do SUS foram utilizados para pagar serviços de digitalização de prontuários que não teriam sido executados conforme o contrato.
A decisão foi assinada em 1º de outubro pelo juiz Waldir Peixoto Barbosa, da 5ª Vara Criminal Residual de Campo Grande. Com o recebimento da denúncia, os sete acusados passam a responder à ação penal. A decisão não representa condenação.
Além de Alir, tornaram-se réus o ex-vice-presidente da instituição, Jary Carvalho, Rinaldo Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e o empresário Maurício Aparecido Benites.
Sete pagamentos sob suspeita
Apresentada em 25 de setembro pela 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc IV), a denúncia tem 146 páginas e descreve fatos que teriam ocorrido entre janeiro de 2024 e setembro de 2026.
A acusação sustenta que dirigentes, funcionários e o empresário atuaram de forma coordenada para direcionar a contratação da Redvalue, manter o contrato e liberar pagamentos sem a correspondente prestação dos serviços.
O Ministério Público aponta sete episódios de peculato, que somam R$ 1.970.850. Dois pagamentos de R$ 281.550 foram realizados em maio e junho de 2025. Os outros cinco ocorreram entre março e julho de 2026, com valores entre R$ 140.775 e R$ 563.100.
Segundo os promotores, controles financeiros da própria Santa Casa indicam que o dinheiro utilizado nesses repasses tinha origem no Sistema Único de Saúde.
Em caso de condenação, o MPMS pede reparação mínima de R$ 1.970.850 por danos materiais e o mesmo valor por danos morais coletivos, totalizando R$ 3.941.700.
Acusação atribui comando a Alir
Na denúncia, Alir Terra é apontada como chefe da suposta organização criminosa, com participação nas principais decisões relacionadas à contratação e ao funcionamento do esquema.
Jary Carvalho teria atuado na priorização e na destinação de recursos à Redvalue. Rinaldo Romano e Paulo Mariosa são apontados como integrantes da estrutura administrativa e financeira responsável pela liberação dos pagamentos.
Alessandro Junqueira e Monique Gregório teriam participado da fiscalização e da elaboração de relatórios sobre a execução contratual. Já Maurício Benites, segundo o MPMS, integraria o núcleo empresarial, participando das negociações e recebendo os valores pagos à empresa.
Contratação direcionada e documento retroativo
O Ministério Público afirma que a escolha da Redvalue teria ocorrido antes da conclusão do procedimento administrativo de contratação.
Mensagens obtidas na investigação indicariam que Jary aproximou Maurício de Rinaldo e forneceu informações internas para a elaboração da proposta comercial. Em uma delas, atribuída a Jary, consta a frase: “Vamos agilizar e limar essa MV”, em referência à empresa que prestava parte dos serviços de tecnologia.
Outro ponto da denúncia é um termo aditivo que teria sido elaborado em 2026, após o início da fiscalização, mas recebeu a data retroativa de 30 de abril de 2025. A acusação enquadra o episódio como falsidade ideológica.
Suspeita de propina
Maurício Benites também responde por corrupção ativa. Segundo o MPMS, ele teria oferecido e pago vantagens indevidas a Jary Carvalho e Rinaldo Romano para viabilizar a liberação de recursos. Os dois respondem por corrupção passiva.
A investigação identificou saques em dinheiro após transferências feitas pela Santa Casa à empresa. Em um dos casos, um repasse de R$ 281.550 foi seguido, no mesmo dia, por um saque de R$ 49.200. Os promotores relacionam essa movimentação a mensagens e encontros entre os envolvidos e sustentam que parte dos recursos teria sido destinada ao pagamento de vantagens indevidas.
Acusações e pedido de prisão
Alir, Alessandro, Paulo e Monique respondem por organização criminosa, sete episódios de peculato e falsidade ideológica. Rinaldo enfrenta essas mesmas acusações, além de corrupção passiva. Maurício responde também por corrupção ativa. Já Jary é acusado de organização criminosa, dois episódios de peculato e corrupção passiva.
O Ministério Público pediu ainda a prisão preventiva de Jary, apontado no material como o único dos sete em liberdade. O juiz não analisou o mérito da solicitação ao receber a denúncia e determinou que o pedido seja apresentado separadamente, em um incidente vinculado à ação principal.
O material encaminhado não apresenta as manifestações das defesas sobre as acusações.

