Prefeito confirmou vínculo do funcionário com o município; governo federal acionou a PF para apurar ameaças contra moradores da Aldeia Sassoró
Um servidor da Prefeitura de Tacuru foi afastado após ser identificado como autor de um áudio que sugere envenenar indígenas da Aldeia Sassoró. O prefeito Rogério Torquetti confirmou que a gravação é de um funcionário do município e anunciou a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). O governo federal também acionou a Polícia Federal para apurar o caso.
Segundo o prefeito, o áudio circula desde domingo (25), dia do segundo turno das eleições presidenciais. A denúncia ganhou repercussão após manifestações de lideranças indígenas, que relacionaram as ameaças ao resultado da disputa eleitoral.
Apesar da gravidade das falas, não há comprovação de que a água consumida pela comunidade tenha sido contaminada, conforme informou o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) no documento encaminhado à PF.
Em vídeo publicado no Instagram, Torquetti negou que o funcionário trabalhe no abastecimento de água. Segundo ele, o servidor atua na infraestrutura municipal, dirigindo caminhão-caçamba.
“Esse servidor, um excelente servidor, inclusive, trabalha na infraestrutura, com caminhão-caçamba”, declarou o prefeito ao anunciar as providências administrativas.
Torquetti afirmou ainda que, até aquele momento, a prefeitura não havia sido intimada por nenhum órgão e que a gestão está à disposição para prestar esclarecimentos.
Prefeito pediu perdão à comunidade
Antes de anunciar o afastamento, Torquetti publicou outro vídeo, gravado na Aldeia Sassoró, ao lado de uma moradora. Na ocasião, afirmou que divergências políticas não deveriam provocar conflitos e pediu que a comunidade perdoasse os responsáveis pelo áudio, caso as declarações tivessem causado ofensa.
A manifestação não encerrou a cobrança das lideranças indígenas por investigação e responsabilização.
O cacique Ivan Montiel, que também é vereador de Tacuru, condenou as ameaças e afirmou que buscará providências nas esferas criminal e cível.
“Não vamos aceitar este tipo de preconceito contra nossa comunidade, ameaçando colocar veneno em água”, declarou.
Montiel também defendeu a liberdade de escolha dos eleitores indígenas. Segundo ele, os moradores têm o mesmo direito de qualquer cidadão de decidir em quem votar.
Denúncia chegou à Polícia Federal
O Ministério dos Povos Indígenas encaminhou à PF, na segunda-feira (26), uma denúncia apresentada por um representante da Aldeia Sassoró. O documento relata manifestações racistas e discriminatórias em áudios que teriam circulado em um grupo de WhatsApp.
As gravações mencionam a possibilidade de adicionar substâncias tóxicas à água consumida pelos moradores. A denúncia também aponta supostas ligações dos envolvidos com serviços públicos prestados na aldeia, circunstância que deverá ser apurada.
O ministério solicitou a identificação dos responsáveis, a verificação da origem e da autenticidade dos áudios e a análise de possíveis crimes. Pediu ainda a avaliação de medidas preventivas para proteger os moradores e garantir a segurança do abastecimento.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, informou que uma força-tarefa com os ministérios dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial acompanha denúncias de violência contra comunidades indígenas, quilombolas e povos de terreiro.
Outros relatos seguem sem confirmação de motivação política
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) também encaminhou denúncias a órgãos federais sobre mortes, atropelamentos, ameaças e manifestações racistas em municípios sul-mato-grossenses.
Entre os episódios mencionados está um atropelamento fatal na MS-289, entre Coronel Sapucaia e Amambai, ocorrido na madrugada de sábado (24), antes do segundo turno. As circunstâncias ainda precisam ser esclarecidas.
A Polícia Federal e a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS) não confirmaram mortes relacionadas à violência política nos casos relatados.
Em nota, a Sejusp negou a afirmação de ocorrência de genocídio contra povos indígenas no estado e informou que as forças de segurança atuam, quando acionadas, para prevenir conflitos e garantir a segurança das pessoas.
