Gaeco prende advogado de delegado e apura vazamento que teria comprometido Operação InfiltradosAmilton Ferreira defendia Hoffman D’Ávila e foi alvo da segunda fase da operação nesta terça-feira; defesa nega repasse de informações
O advogado Amilton Ferreira, que atuava na defesa do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, foi preso temporariamente nesta terça-feira (29) durante a segunda fase da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco em Campo Grande.
Batizada de Obstructio, a nova etapa investiga a suspeita de que informações sigilosas sobre a operação teriam sido antecipadas, prejudicando o trabalho dos investigadores.
Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, há indícios já documentados de que ocorreu uma “comunicação criminosa” da ação policial, o que teria provocado embaraço direto à investigação sobre a organização criminosa investigada por desvio de drogas apreendidas.
Além do mandado de prisão temporária, foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão.
Advogado estava com delegado no dia da operação
Amilton Ferreira representava Hoffman no dia 24 de setembro, quando a primeira fase da Operação Infiltrados foi deflagrada.
Naquela manhã, equipes do Gaeco foram até a residência do delegado para cumprir o mandado de prisão, mas ele não estava no local.
Hoffman alegou posteriormente que havia saído para resolver uma questão pessoal.
Horas depois, ele se apresentou à Corregedoria-Geral da Polícia Civil acompanhado de Amilton. Na ocasião, o advogado afirmou que o delegado estava surpreso com a operação.
A suspeita investigada agora é de que informações sobre a ação policial possam ter chegado antecipadamente a investigados.
Defesa nega vazamento
Após a prisão, Amilton foi levado à Depac-Cepol e passou por exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal.
A defesa do advogado, representada por Damares Machado, negou que ele tenha vazado informações.
Segundo ela, Amilton não teve acesso antecipado à operação e apenas manteve contato com clientes no exercício da advocacia criminal.
A defesa também sustenta que previsões ou suspeitas sobre possíveis medidas judiciais fazem parte da atuação profissional e não significam conhecimento prévio de informações sigilosas.
O cumprimento das medidas foi acompanhado pela OAB-MS, em razão de o investigado ser advogado.
O MPMS informou que a investigação continua sob sigilo.
Esquema teria transformado policiais em fornecedores do tráfico
A Operação Infiltrados apura a atuação de um grupo suspeito de desviar drogas apreendidas por agentes de segurança e devolver os entorpecentes ao mercado ilegal.
Segundo o Gaeco, o esquema funcionava principalmente de duas maneiras: parte da droga apreendida era omitida dos registros oficiais ou entorpecentes eram retirados diretamente de depósitos policiais.
Depois disso, a droga seria repassada a traficantes responsáveis por recolocá-la em circulação.
A investigação começou em outubro de 2025, a partir de provas obtidas nas operações Traquetos e Blindspot.
Na primeira fase, foram expedidos 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos.
Hoffman é apontado como liderança
O Gaeco aponta o delegado Hoffman D’Ávila como uma das principais figuras da organização investigada.
Segundo documentos da investigação, ele teria ocupado uma posição de comando e dado respaldo institucional ao esquema de desvio de entorpecentes.
Os investigadores sustentam que policiais que deveriam atuar no combate ao tráfico passaram a utilizar suas próprias funções e estruturas públicas para fornecer drogas apreendidas a criminosos.
Entre os traficantes citados está Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, que teria recebido parte dos entorpecentes desviados.
Áudios analisados pelo Gaeco fazem referência a uma pessoa chamada de “Careca”, identificada pelos investigadores como Hoffman.
Para o Gaeco, o conteúdo das conversas indica que essa pessoa exercia ascendência sobre os demais integrantes do grupo e participava diretamente das decisões relacionadas ao desvio das cargas.
As investigações continuam, e todos os envolvidos poderão apresentar defesa no decorrer dos procedimentos judiciais.
