Vídeo e documentos encontrados com intermediário levantam suspeita de contatos em São Paulo; áudio relata suposto aliciamento por policiais
A investigação sobre o desvio de drogas apreendidas em Mato Grosso do Sul aponta uma possível conexão do grupo com São Paulo, inclusive com policiais. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), os suspeitos poderiam contar com contatos no Estado paulista para interceptar carregamentos e desviar entorpecentes para revenda.
A suspeita integra a Operação Infiltrados, deflagrada na semana passada, que resultou na prisão do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa. O Gaeco o aponta como responsável pelo comando do esquema, especialmente nas negociações envolvendo cocaína.
Um dos episódios analisados é a apreensão de 601 quilos de maconha em maio de 2025, em Regente Feijó, no interior paulista. A droga estava no fundo falso de um caminhão que, conforme a investigação, pertencia a um homem conhecido como “Gordinho”.
Dias antes da abordagem, Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, teria articulado com o proprietário o transporte de aproximadamente 600 quilos de entorpecentes de Ponta Porã para São Paulo. Apontado como intermediário entre policiais e traficantes, ele pretendia interceptar o veículo com a participação de agentes suspeitos de integrar o grupo.
No celular de LK, os investigadores encontraram um vídeo do momento em que policiais militares paulistas localizaram a maconha. Ele também teria acesso ao boletim de ocorrência e a documentos considerados sigilosos pelo Gaeco.
Para os investigadores, esse material levanta a hipótese de que a organização tivesse contatos em São Paulo. A apuração também considera a possibilidade de que houvesse cocaína no caminhão e que a substância tenha sido desviada, já que não aparece nos registros da apreensão. A eventual participação de policiais paulistas permanece sob investigação.
Áudio relata aproximação com policiais
Outra frente da apuração busca esclarecer como LK teria começado a atuar com os agentes. Preso em 3 de setembro, em desdobramentos da Operação Lealdade Corrompida, ele é apontado como um dos principais articuladores do esquema.
Um áudio de 21 de outubro de 2024, encontrado após a quebra de sigilo telefônico de Alan Roberto Martinez Martin Abdalla, conhecido como “Scooby”, descreve o suposto aliciamento. Alan foi alvo de busca e apreensão na Operação Blindspot, em 2025.
Na gravação, ele afirma que LK recebeu uma proposta enquanto estava preso e, desde então, passou a fornecer informações sobre carregamentos e a vender drogas entregues pelos policiais.
“Derruba trampo, pega mercadoria para vender, diz que os caras levam na mão dele”, relata Alan.
Após analisar o áudio, o Gaeco localizou uma ocorrência de 28 de abril de 2021, quando LK foi conduzido à Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), após uma abordagem nas proximidades da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.
O registro informa que nada de ilícito foi encontrado com ele e que a condução ocorreu por desobediência e desacato. Os investigadores questionam essa versão e levantam a hipótese de que drogas tenham sido objeto de um acerto sem registro formal de apreensão. Essa possibilidade ainda integra a apuração sobre o início da relação entre os envolvidos.
Pagamento condicionava novas entregas
Segundo o Gaeco, LK indicava a localização de carregamentos aos policiais. Após as abordagens, parte ou a totalidade dos entorpecentes seria desviada e entregue a ele para revenda, com divisão do dinheiro entre os participantes.
Mensagens de 2022 indicariam que o fornecimento seguia uma rotina de cobrança: os agentes exigiam o pagamento das remessas anteriores antes de liberar novas cargas.
Em uma conversa de dezembro daquele ano, LK disse a Edimilson da Silva Santos que não havia conseguido retirar outra remessa da Denar porque ainda existiam valores pendentes. Em outra mensagem, pressionou pelo acerto:
“Amanhã é o último dia para tirar lá. Se não pagar, não conseguimos mais, aí só no ano que vem. Preciso pegar ‘30 de branca’”.
Na avaliação dos investigadores, os diálogos sugerem que as drogas oferecidas para entrega imediata poderiam sair do estoque de entorpecentes apreendidos e mantidos sob custódia policial.
Desvio em apreensões e depósitos
A Operação Infiltrados teve início em outubro de 2025, com base em provas reunidas nas operações Traquetos e Blindspot. Conforme o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, a ofensiva da semana passada cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos.
A investigação aponta duas formas de atuação: omissão de parte das drogas nos registros oficiais das apreensões e retirada de entorpecentes dos depósitos de delegacias.
O material seria entregue a traficantes ligados ao grupo para retornar ao mercado ilegal. As suspeitas de participação dos investigados e de conexão com São Paulo seguem em apuração.
