A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul identificou um aumento no recrutamento de adolescentes por organizações criminosas que disputam território no Estado. Segundo investigadores, jovens com menos de 18 anos são atraídos por promessas de dinheiro, pagamento de aluguel, fornecimento de cestas básicas e outras formas de auxílio financeiro.
O cenário foi detalhado na sexta-feira (25) pelo diretor do Departamento de Polícia Especializada (DPE), Ivan Barreira, e pelo delegado do Grupo Armado de Repressão a Roubos, Assaltos e Sequestros (Garras), Roberto Oliveira Guimarães.
De acordo com Barreira, a disputa entre facções começou a ganhar força no norte de Mato Grosso do Sul, passando pela região de Coxim e avançando por municípios como Costa Rica e Três Lagoas, até atingir também o sul do Estado.
Nos últimos dias, as forças de segurança realizaram uma série de operações de combate ao crime organizado que terminaram em prisões e confrontos, incluindo ocorrências com mortes decorrentes de intervenção de agentes do Estado.
Nesse contexto, chamou a atenção dos investigadores a presença cada vez maior de adolescentes ligados aos grupos criminosos.
Segundo o diretor do DPE, a situação econômica vulnerável de parte desses jovens é explorada pelas organizações.
“Podemos ver que a maioria desses adolescentes vêm de uma situação financeira mais carente. Os cabeças das facções vendo isso atraem eles”, afirmou Ivan Barreira.
A Polícia Civil observa ainda diferenças na forma de atuação das principais organizações presentes no Estado. Conforme Barreira, o recrutamento de adolescentes seria mais frequente entre integrantes do Comando Vermelho (CV) do que do Primeiro Comando da Capital (PCC).
“É uma tendência da facção carioca. Porque se a gente pegar a outra paulista, não tem participação de tanto adolescente, enquanto que na outra é uma tendência crescente a utilização deles aqui no nosso Estado”, declarou.
Entre as formas utilizadas para convencer os adolescentes estão promessas de custeio do aluguel, entrega de cestas básicas e pagamento pela participação direta em atividades criminosas.
Para o delegado Roberto Oliveira Guimarães, do Garras, o envolvimento de menores de idade não ocorre apenas pela expectativa das organizações de que adolescentes estejam sujeitos a medidas diferentes das aplicadas aos adultos.
Segundo ele, parte dos jovens também é atraída pela sensação de pertencimento e poder proporcionada pela vinculação a esses grupos.
“Eles acabam integrando esses grupos de organização criminosa com uma própria forma de se identificar ou se pôr naquele meio social, porque eles expõem muita coisa, a conduta dele com sinais, símbolos de facção, com armas de fogo, ostentando joias para se prevalecer dentro daquele núcleo, daquele meio social que ele tem”, explicou.
Na avaliação do delegado, porém, a promessa de status e poder não se concretiza da maneira apresentada pelos líderes das organizações. Depois de recrutados, os adolescentes acabam empregados principalmente em crimes como homicídios, roubos e outras ações violentas.
“E acaba, infelizmente, sendo preso, um acaba matando o outro, e o negócio não se sustenta”, completou Roberto Oliveira.

