O patrimônio declarado do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), passou de menos de R$ 100 mil no fim de 2023 para R$ 1,226 milhão em 2025, segundo investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
A evolução patrimonial integra os elementos apresentados pelo órgão para fundamentar o pedido de prisão do delegado, detido na quinta-feira (24) durante a Operação Infiltrados.
Hoffman é investigado sob suspeita de integrar e comandar um esquema envolvendo policiais da Denar para desviar drogas apreendidas e recolocá-las no mercado ilegal. Os dados financeiros analisados foram obtidos após quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
De acordo com o Gaeco, Hoffman encerrou 2023 com patrimônio líquido próximo de R$ 100 mil. Nos anos de 2020 e 2021, as dívidas declaradas por ele teriam superado o valor dos bens.
Os investigadores sustentam que o crescimento patrimonial ocorreu paralelamente ao período em que o grupo suspeito teria começado a desviar grandes carregamentos de cocaína.
Um dos episódios investigados envolve a apreensão de 643 quilos de cocaína em Bela Vista, em maio de 2024. O Gaeco suspeita que aproximadamente 120 quilos da carga tenham sido desviados.
Casa milionária no Alphaville
Durante a investigação, foi localizada em uma conta do OneDrive vinculada ao e-mail de Hoffman uma planilha denominada “PAGAMENTOS OBRA ATUALIZADO.xlsx”.
O documento detalhava despesas de uma residência em construção no condomínio Alphaville 1, em Campo Grande. Os gastos relacionados na planilha somavam aproximadamente R$ 1,649 milhão, dos quais cerca de R$ 1,2 milhão já constavam como pagos em 2025.
Entre as despesas aparecem R$ 300 mil em madeira, R$ 214,5 mil em revestimentos, R$ 190 mil em eletrodomésticos, R$ 170 mil em automação residencial, R$ 89 mil em elevador, R$ 81 mil em aparelhos de ar-condicionado e R$ 21,5 mil em churrasqueira.
O terreno teria sido comprado em 2024 por R$ 400 mil, com parte significativa do pagamento, segundo a investigação, realizada em dinheiro vivo.
O imóvel foi um dos endereços alvo das buscas da Operação Infiltrados.
Dinheiro em espécie
O Gaeco também identificou movimentações bancárias consideradas incompatíveis com os rendimentos declarados pelo delegado.
Entre outubro de 2021 e junho de 2025, foram registrados 32 depósitos em espécie na conta de Hoffman, totalizando R$ 328,5 mil.
Em 11 de março de 2024, conforme os dados analisados, houve um depósito de R$ 276 mil em dinheiro no caixa de uma agência bancária. No mesmo dia, foi registrado saque de R$ 265 mil destinado a pagamentos.
A conta da esposa do delegado teria recebido outros 80 depósitos em espécie, que juntos somaram R$ 108 mil.
Na declaração do Imposto de Renda de 2025, Hoffman informou empréstimo de R$ 750 mil da empresa W Martins Representações e Comércio de Artigos de Mercearia Ltda.
O Gaeco, porém, questiona a operação. Conforme a investigação, a empresa possui capital social de R$ 20 mil e não foram encontrados registros bancários que comprovassem a entrada dos R$ 750 mil na conta do delegado.
Também não teriam sido identificados pagamentos posteriores para amortização da dívida. A suspeita dos investigadores é de que o contrato possa ter sido usado para justificar patrimônio e conferir aparência legal aos recursos. O proprietário da empresa não aparece como investigado.
Veículos e transferências
Em 2025, Hoffman adquiriu um Honda HR-V financiado, enquanto uma Toyota Hilux foi registrada em nome da esposa. Os dois veículos somavam valor superior a R$ 400 mil.
No mesmo período, o delegado vendeu um Jeep Compass por R$ 150 mil. Os rendimentos declarados por ele naquele ano chegaram a aproximadamente R$ 519 mil.
A investigação também identificou três transferências de R$ 25 mil feitas por Hoffman, entre agosto e outubro de 2025, para a empresa Ateliê Raro Fabricação e Comércio de Móveis, ligada ao investigador Douglas Tobias, subordinado do delegado na Denar e também preso na Operação Infiltrados.
A mesma empresa havia recebido R$ 130 mil, em outubro de 2024, do investigador Nelson Ricardo Barros de Oliveira. Segundo o Gaeco, pouco antes Nelson teria recebido R$ 313 mil em depósitos em dinheiro.
Somadas as movimentações da conta pessoal de Douglas e da empresa, a investigação aponta aproximadamente R$ 500 mil em depósitos cuja origem não foi identificada desde 2021.
O Gaeco ainda aponta ligações financeiras entre Hoffman e outros integrantes do grupo investigado. Em setembro de 2021, o investigador Neverson Vieira de Araújo teria realizado três transferências via Pix para Hoffman, totalizando R$ 5,9 mil.
Em dezembro de 2022, Hoffman e Neverson viajaram juntos a Brasília para representar a Denar em um encontro nacional relacionado ao combate ao tráfico de drogas.
