A adesão de Paraguai e Bolívia a uma coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o crime organizado amplia o cerco internacional ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). Os dois países dividem fronteira com Mato Grosso do Sul, considerado um dos principais corredores brasileiros do tráfico internacional de drogas.
Batizada de Escudo das Américas, a iniciativa foi criada pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump para ampliar a troca de informações de inteligência e coordenar ações contra organizações envolvidas com narcotráfico, contrabando e outros crimes transnacionais.
O Brasil ficou fora da articulação. A ausência ocorre em meio à divergência entre os governos de Trump e Luiz Inácio Lula da Silva sobre a classificação das facções brasileiras. Enquanto Washington enquadra PCC e CV como organizações terroristas, Lula rejeita essa definição e defende o combate aos grupos dentro da legislação brasileira e com respeito à soberania nacional.
Além das duas facções brasileiras, a coalizão mantém no radar grupos como Tren de Aragua, da Venezuela; Mara Salvatrucha, conhecida como MS-13; cartéis de Sinaloa e Jalisco Nueva Generación, do México; Clã do Golfo, da Colômbia; além de organizações ligadas às dissidências das Farc e ao Sendero Luminoso, do Peru.
Fronteiras de MS ganham relevância
A movimentação tem impacto direto sobre Mato Grosso do Sul, que possui aproximadamente 1,5 mil quilômetros de fronteira internacional com Paraguai e Bolívia.
Um dos pontos mais sensíveis está entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai. As duas cidades são separadas por uma fronteira seca, marcada pela intensa circulação diária de pessoas, veículos e mercadorias.
No oeste do Estado, Corumbá mantém ligação direta com as cidades bolivianas de Puerto Quijarro e Puerto Suárez. As duas regiões estão inseridas em corredores frequentemente utilizados para o transporte de cocaína, maconha, armas e produtos contrabandeados.
Com a entrada de Paraguai e Bolívia na coalizão, as duas fronteiras internacionais de Mato Grosso do Sul passam a estar conectadas a países integrantes da ofensiva liderada por Washington, enquanto o Brasil permanece fora da iniciativa.
A ausência brasileira, entretanto, não interrompe os mecanismos já existentes de cooperação com os países vizinhos. Brasil, Paraguai e Bolívia mantêm ações conjuntas e intercâmbio de informações para combater o tráfico de drogas, o contrabando e outros crimes transfronteiriços.
Coalizão reúne 15 países
O encontro dos integrantes do Escudo das Américas ocorreu em Nova York, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, e reuniu chefes de Estado, ministros e representantes dos países participantes.
Além dos Estados Unidos, integram a iniciativa Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago. Brasil e México, apesar da presença de grandes organizações criminosas em seus territórios, estão fora do grupo.
Segundo os governos participantes, a coalizão permitirá acesso a bancos de informações sobre o crime organizado, sistemas de análise de dados e treinamentos para as forças de segurança, além de fortalecer a coordenação entre países fronteiriços. Cada integrante continuará submetido às próprias leis e obrigações internacionais.
Cerco financeiro
A estratégia defendida pelos Estados Unidos prevê atingir não apenas integrantes das organizações criminosas, mas também suas fontes de financiamento e redes de apoio.
Entre as medidas estão a identificação de patrimônio, movimentações financeiras e pessoas ligadas às facções, além de restrições migratórias e responsabilização de quem prestar apoio material ou financeiro aos grupos.
O objetivo é dificultar a circulação internacional dos integrantes e reduzir a capacidade das organizações de transferir dinheiro e manter estruturas logísticas em diferentes países.
Criado dentro do sistema penitenciário de São Paulo na década de 1990, o PCC expandiu sua atuação e estabeleceu conexões com redes criminosas de outros países sul-americanos. O Comando Vermelho, surgido no Rio de Janeiro, também ampliou sua presença para além do território fluminense.
Divergência com o Brasil
Em discurso na Assembleia-Geral da ONU, Trump voltou a defender medidas mais duras contra os cartéis e comparou o poder dessas organizações ao de grupos terroristas. Para o governo norte-americano, as facções acumularam recursos financeiros, armas e estruturas capazes de operar em vários países.
A ofensiva é articulada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, responsável por reuniões com presidentes e chanceleres dos países integrantes da coalizão.
Lula, por sua vez, afirmou que o Brasil precisa derrotar o crime organizado, mas rejeitou a classificação defendida pelo governo norte-americano.
“Eu não aceito a ideia de que as facções são terroristas, como diz o Trump”, declarou o presidente brasileiro.
O governo federal sustenta que o enfrentamento ao PCC, ao Comando Vermelho e às demais organizações deve ser conduzido pelo próprio Brasil, com cooperação internacional, mas sem interferências que comprometam a soberania do País.

