Quebra de sigilos revelou saques fracionados, circulação de recursos entre empresas e compras de imóveis; eventual bloqueio de bens pode ser usado para garantir ressarcimento
Depois de prender integrantes da cúpula administrativa da Santa Casa de Campo Grande e um empresário, a investigação da Operação Antidotum avança agora sobre uma etapa considerada decisiva: descobrir onde foram parar os milhões de reais que, segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), teriam sido desviados por meio de contratos fraudulentos.
O trabalho é conduzido pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A quebra de sigilos bancários permitiu aos investigadores reconstruir parte do caminho percorrido pelo dinheiro depois que os recursos deixavam as contas da Santa Casa e de empresas ligadas à instituição.
O prejuízo oficialmente apontado pelo MPMS até agora supera R$ 4,9 milhões, mas o próprio Ministério Público ressalta que o montante total permanece em apuração. Paralelamente, documentos da investigação revelam movimentações financeiras muito maiores, incluindo R$ 9,6 milhões pagos somente em 2025 pela Operadora Santa Casa Saúde a empresas investigadas.
A apuração patrimonial poderá servir de base para pedidos judiciais de bloqueio de contas, indisponibilidade ou sequestro de imóveis e outros bens, caso o Ministério Público demonstre que o patrimônio está relacionado aos recursos investigados. Até o momento, porém, não há informação pública de que todo o montante apontado como desviado tenha sido localizado ou recuperado.
Dinheiro terminava em saques
Um dos pontos que mais chamaram a atenção dos investigadores foi a repetição de retiradas em dinheiro vivo.
A quebra do sigilo bancário mostrou que, depois dos pagamentos feitos pela Santa Casa, valores circulavam por empresas e pessoas ligadas ao núcleo investigado e acabavam, em diversos casos, convertidos em espécie.
Segundo o Gecoc, apareceram repetidamente saques de R$ 49.999. Para a investigação, o fracionamento dificultava acompanhar o destino final do dinheiro e identificar seus beneficiários.
Somente nas movimentações já detalhadas nos autos aparecem milhões de reais em saques e transferências. Uma pessoa é associada pela investigação a aproximadamente R$ 2,197 milhões; um funcionário de empresa ligada ao grupo aparece em operações que somaram R$ 675.999; outra pessoa recebeu R$ 955.583 e teria realizado 16 saques próximos de R$ 50 mil. Também surgem servidores públicos em movimentações que, juntas, se aproximam de R$ 1 milhão.
Na avaliação do Ministério Público, o padrão reforça a suspeita de uma estrutura destinada a pulverizar os recursos.
A investigação cita Redvalue Tecnologia, Exbe Tecnologia e Infortech como empresas que teriam funcionado de maneira integrada, com transferências entre elas, pagamentos cruzados e utilização de pessoas físicas para realizar retiradas.
Imóveis entram no radar
Além das contas bancárias, a evolução patrimonial de pessoas ligadas ao caso passou a ser analisada.
O Gecoc levantou pelo menos quatro negócios imobiliários considerados relevantes, que, somados pelos valores declarados nas escrituras, chegam a aproximadamente R$ 1,87 milhão. O Ministério Público cruza as datas dessas aquisições com a assinatura dos contratos e com a circulação dos recursos investigados.
Entre os negócios está uma casa adquirida por Alir Terra Lima, então presidente da Santa Casa, em janeiro de 2025 por R$ 400 mil. Conforme escritura citada na investigação, o pagamento foi feito em espécie.
Também foram analisadas aquisições atribuídas ao advogado Paulo da Cruz Duarte e à esposa. Um apartamento de R$ 350 mil teria sido pago em moeda corrente nacional, enquanto outro, de R$ 670 mil, foi adquirido durante período em que empresas ligadas ao advogado recebiam pagamentos da Santa Casa Saúde.
A existência das aquisições, isoladamente, não comprova que os imóveis tenham sido comprados com dinheiro desviado. É justamente a origem dos recursos utilizados nessas transações que integra o rastreamento patrimonial.
R$ 9,6 milhões saíram da operadora
Outra frente da Operação Antidotum envolve contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde.
Segundo documentos apresentados pelo Gecoc à Justiça, empresas vinculadas a Paulo da Cruz Duarte teriam recebido R$ 9.617.738,49 somente em 2025 para serviços em diferentes áreas, entre elas cobrança, atendimento, comercialização de planos, administração de beneficiários, telemedicina e publicidade.
No mesmo período, a operadora apresentou resultado negativo superior a R$ 3,5 milhões.
O Ministério Público afirma que diversas empresas contratadas pertenciam ao mesmo grupo econômico e que algumas funcionavam formalmente no mesmo endereço, embora o imóvel indicado estivesse desocupado. O MPMS estima, nesta parte da investigação, prejuízo mínimo de R$ 3,5 milhões.
Digitalização também está sob suspeita
A outra grande frente da investigação é o contrato para digitalização de prontuários médicos.
O acordo previa desembolso de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o Ministério Público, somente no primeiro ano o prejuízo teria chegado a R$ 1,4 milhão, devido a pagamentos realizados sem a correspondente prestação dos serviços.
Dados citados na investigação apontam ainda que a Redvalue recebeu cerca de R$ 2,1 milhões em 14 meses, embora o volume de documentos efetivamente digitalizados representasse aproximadamente 9% da meta prevista no contrato.
Seis continuam presos
A Operação Antidotum foi deflagrada em 11 de setembro, com seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão cumpridos em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Foram presos Alir Terra Lima, Alessandro Dias Junqueira, Rinaldo Hakme Romano, Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e o empresário Maurício Aparecido Benites.
Os seis permaneceram presos após audiência de custódia. Até a manhã desta terça-feira (15), as informações públicas mais recentes indicavam a manutenção das prisões preventivas.
A investigação apura, entre outras suspeitas, possíveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, fraude em contratações e organização criminosa.
A defesa de Alir Terra Lima declarou que ela nega ter cometido irregularidades, disse que a presidente está indignada com as acusações e informou que pretende buscar a revogação da prisão. A Santa Casa, por sua vez, informou que está colaborando com as autoridades e permanece à disposição para prestar esclarecimentos.
Com prisões realizadas, documentos apreendidos e sigilos bancários quebrados, a investigação passa a ter como um de seus principais desafios reconstruir integralmente o fluxo financeiro: quanto saiu da Santa Casa, quem recebeu, para onde o dinheiro foi transferido e que patrimônio poderá eventualmente ser alcançado pela Justiça para ressarcir a instituição.
