Mato Grosso do Sul tem ganhado destaque em um livro técnico voltado à segurança viária e à preservação ambiental como um dos principais cenários de testes para reduzir colisões entre veículos e animais silvestres.
A publicação aponta que o Estado reúne condições ideais para a aplicação e avaliação de medidas mitigadoras, como grande diversidade de fauna, rodovias que atravessam áreas naturais — especialmente o Pantanal — e monitoramento científico contínuo. Esse conjunto transforma trechos estratégicos em verdadeiros campos de experimentação, capazes de gerar soluções replicáveis em outras regiões do país.
Um dos principais focos dos estudos é a BR-262, sobretudo no trecho entre Anastácio e Corumbá, considerado prioritário para intervenções. A rodovia cruza áreas de Cerrado e Pantanal, incluindo planícies alagáveis, regiões do planalto da Bacia do Alto Paraguai e o Maciço do Urucum, locais com elevada incidência de atropelamentos de fauna.
De acordo com a obra “Segurança Viária e Conservação da Fauna: Medidas de Mitigação para Reduzir Impactos sobre Animais Silvestres em Rodovias Federais Brasileiras”, o segmento entre Miranda e Corumbá é um dos mais críticos, devido à intensa circulação de espécies de médio e grande porte e às condições ambientais que favorecem a travessia de animais.
No corredor pantaneiro, o levantamento abrangeu 278,3 quilômetros da BR-262, entre os km 489,6 e 767,9. Nesse trecho, foram identificadas 115 estruturas já existentes com potencial de uso por animais, sendo 74 pontes e 41 bueiros ou antigas passagens de gado. Monitoramentos mostram que ao menos 12 espécies de mamíferos utilizam essas estruturas, como anta, queixada, quati e capivara, incluindo espécies ameaçadas.
A partir dos pontos críticos, foram definidos 18 blocos prioritários para intervenções. Entre as ações previstas estão a instalação de 160 quilômetros de cercas, oito estruturas do tipo “jump-out” (que permitem a saída de animais da pista), 36 dispositivos para indução à redução de velocidade, uso adaptado de pontes existentes, implantação de passagens inferiores e instalação de radares.
Também está prevista a construção de sete passagens aéreas voltadas a espécies arborícolas. Essas estruturas serão instaladas entre 7 e 9 metros de altura, utilizando cabos de aço, cordas e redes, de forma a se integrar ao dossel da vegetação local.
Além da BR-262, o estudo identifica outras rodovias com alto índice de atropelamentos no Estado, como BR-163, BR-267, BR-060, BR-487 e as estaduais MS-134, MS-157 e MS-162. Nessas vias, são frequentes os registros envolvendo animais de grande porte, como anta, onça-pintada, cervo-do-pantanal e tamanduá.
Devido ao porte e peso, esses animais estão associados a acidentes de maior gravidade, com risco elevado de mortes e ferimentos graves, além de impactos significativos à biodiversidade. A anta, por exemplo, pode chegar a 300 quilos e figura entre as espécies mais afetadas por atropelamentos no Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica.
O documento ainda destaca que iniciativas semelhantes vêm sendo adotadas em outros estados brasileiros. Em São Paulo, há implantação de passagens de fauna e cercas em rodovias concedidas; em Santa Catarina e Paraná, projetos combinam estruturas de travessia com monitoramento; e em Minas Gerais, ações ocorrem em áreas de Cerrado e Mata Atlântica. Todas seguem a mesma lógica: testar soluções, medir resultados e criar referências técnicas para aplicação em escala nacional.

