A residência que está no centro do homicídio do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, morto a tiros nesta terça-feira pelo ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, possui uma dívida de quase R$ 345 mil em Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).
O imóvel, localizado em área valorizada da cidade, tem cerca de 680 metros quadrados de área construída em um terreno de aproximadamente 1,4 mil metros quadrados. O débito acumulado chega a R$ 344.923,14.
Caso assumisse a posse da casa, o fiscal tinha expectativa de receber cerca de R$ 850 mil do ex-prefeito, referentes à cobrança de aluguel mensal de R$ 24,1 mil, com valores retroativos desde abril de 2023, período em que o imóvel teria sido retomado pela instituição financeira.
O crime ocorreu pouco antes das 14h, na Rua Antônio Maria Coelho, região central da Capital. De acordo com informações iniciais, Bernal efetuou ao menos três disparos, sendo que dois atingiram a vítima. Mazzini estava acompanhado de um chaveiro e teria ido ao local para assumir a posse da residência.
A versão apresentada pelo ex-prefeito é de legítima defesa. Segundo ele, o fiscal e outras pessoas teriam tentado agredi-lo. O delegado Oswaldo Meza informou que o caso foi registrado como homicídio simples e também como legítima defesa, e que detalhes do depoimento não seriam divulgados neste momento.
Familiares da vítima estiveram no local durante a tarde, mas não comentaram o caso. O imóvel havia sido arrematado em leilão por pouco mais de R$ 2,4 milhões, após não receber interessados quando ofertado anteriormente por R$ 3,7 milhões.
Dentro da caminhonete do fiscal, foi encontrada uma notificação extrajudicial datada de 20 de fevereiro, estipulando prazo de 30 dias para desocupação do imóvel. O documento também previa a cobrança de aluguel retroativo, embora esse tipo de notificação não tenha força legal para obrigar pagamento ou entrega do bem.
Servidor da Secretaria de Fazenda desde 2008, Mazzini recebia salário de R$ 69,1 mil e estava lotado em uma unidade da Sefaz na Acrisul.
Após o crime, Bernal deixou o local e se apresentou à polícia. De acordo com a defesa, ele foi avisado por uma empresa de segurança sobre uma suposta invasão à residência. Ao chegar, teria sido ameaçado, o que teria motivado os disparos com um revólver calibre 38 registrado. Segundo o advogado, Bernal possui registro como CAC e ainda residia no imóvel.
A defesa informou ainda que, por ter formação em Direito, o ex-prefeito deve permanecer em cela especial e passará por audiência de custódia, que decidirá sobre a manutenção ou não da prisão.
Trajetória política
Alcides Bernal iniciou sua carreira política após ganhar notoriedade como radialista. Foi vereador por dois mandatos e, em 2010, elegeu-se deputado estadual como um dos mais votados.
Em 2012, venceu a eleição para prefeito de Campo Grande. No entanto, em 2014, teve o mandato cassado pela Câmara Municipal, sendo o primeiro prefeito da Capital a sofrer essa penalidade. Após decisões judiciais conflitantes, conseguiu retornar ao cargo em agosto de 2015, permanecendo até o fim do mandato, em dezembro de 2016.
Desde então, disputou novas eleições, mas não voltou a ocupar cargos eletivos.

