A Justiça do Distrito Federal concedeu medidas protetivas de urgência à advogada Raquelle Lisboa Alves após denúncia de agressões físicas, psicológicas e ameaças atribuídas ao ex-deputado federal Loester Trutis. O caso tramita em segredo de Justiça.
A denúncia foi apresentada em 25 de janeiro ao 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Brasília. Segundo o relato, os episódios teriam ocorrido ao longo do casamento, iniciado em 2022, e incluiriam empurrões, ofensas constantes, controle financeiro, destruição de objetos pessoais e disparos de arma de fogo dentro da residência do casal.
De acordo com a denunciante, o episódio que motivou o pedido de proteção ocorreu em 14 de janeiro deste ano. Durante uma discussão, ela afirma ter sido ofendida e informada de que o marido pretendia se divorciar, sob a alegação de que ela “não deixava nada dar certo” na vida dele.
No dia seguinte, ao se preparar para sair de casa, Raquelle relata que voltou a ser alvo de agressões verbais na frente das crianças, sendo chamada de “louca” e “descontrolada”. Ainda conforme a denúncia, o ex-parlamentar teria impedido que ela deixasse a residência com o filho do casal, afirmando que, caso a polícia fosse acionada, ela poderia ser presa sob acusação de agressão contra as crianças, alegando possuir gravações.
A advogada afirma que foi segurada pelos braços e, ao tentar se desvencilhar, caiu no chão, sofrendo hematomas nos braços e joelhos. Após pedir ajuda, conseguiu acionar um amigo do casal, reuniu pertences pessoais e do bebê e deixou o imóvel. Em seguida, viajou para Brasília, onde passou a residir na casa da mãe.
Além do bebê que está com Raquelle, o ex-deputado tem a guarda compartilhada de três filhos do casamento anterior.
Histórico do relacionamento
Raquelle relata que iniciou relacionamento com o então parlamentar em 2019, quando foi nomeada assessora no gabinete dele, na Câmara dos Deputados. Segundo ela, as agressões teriam começado cerca de seis meses após o início da relação.
De acordo com a denúncia, as agressões físicas ocorriam em momentos de ciúmes ou desentendimentos. Ela afirma que era empurrada ou atingida no rosto, com o cuidado, segundo seu relato, de não deixar marcas aparentes.
Após o casamento, em 2022, diz ter passado a sofrer controle sobre sua vida pessoal e profissional. Conforme a denúncia, o marido exigia parte de sua renda, pressionava para que deixasse o emprego e teria contraído dívidas em seu cartão de crédito.
A advogada também afirma que era chamada de “âncora” e de “péssima mãe” e que teve três celulares quebrados pelo companheiro, inclusive na presença das crianças. Ela declara ainda que foi incentivada por ele a disputar eleição para deputada estadual, ficando o então parlamentar responsável pela administração financeira e estratégias da campanha.
Em 2025, Loester Trutis e Raquelle foram condenados pelo Tribunal Superior Eleitoral por irregularidades na prestação de contas da campanha de 2022, em decisão que reconheceu a prática de lavagem de recursos eleitorais. Segundo o Ministério Público Eleitoral, os desvios apurados somaram R$ 776 mil, valor que, com a atualização, supera R$ 1 milhão.
O processo deve ser concluído nos próximos meses, após a apresentação do último recurso cabível. Caso a condenação seja mantida após o trânsito em julgado, além da devolução dos valores apontados como desviados, ambos poderão ter os diplomas cassados e ficar inelegíveis por até oito anos.
Um dos episódios mais graves, conforme a denúncia, teria ocorrido em março de 2025. Raquelle afirma ter sido empurrada durante discussão e sofrido queda que resultou em fissura na costela, conforme laudo médico anexado ao processo. Na mesma ocasião, relata que, após se recolher a outro quarto com o filho, o ex-deputado teria ameaçado tirar a própria vida e efetuado dois disparos de arma de fogo dentro da residência. O caso não foi comunicado à polícia naquele momento.
Decisão judicial
Em 25 de janeiro, o juiz Carlos Bismarck Piske de Azevedo Barbosa determinou a aplicação de medidas protetivas de urgência. Desde então, Loester Trutis está proibido de se aproximar da vítima, devendo manter distância mínima de 300 metros.
Ele também está impedido de manter qualquer tipo de contato com Raquelle por telefone, aplicativos de mensagem, e-mail ou redes sociais, além de não poder frequentar determinados locais para preservar a integridade física e psicológica da denunciante.
Outro lado
Procurado, o ex-deputado afirmou que “Raquelle está passando por um momento difícil, de depressão pós-parto”.
Ele negou que tenha havido agressão física ou psicológica e declarou que apresentará provas no momento oportuno. “Eu sigo amando minha esposa e tenho fé que esse momento conturbado será superado”, disse.
Raquelle Lisboa Alves excluiu suas redes sociais e não foi localizada pelos contatos anteriormente disponíveis.

