O depoimento do chaveiro Maurílio da Silva Cardoso, de 69 anos, considerado peça-chave na investigação da morte do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, apresenta divergências em relação à versão do ex-prefeito Alcides Bernal e pode fragilizar a tese de legítima defesa sustentada pela defesa.
O crime ocorreu no início da tarde de terça-feira (24). Ao se apresentar à polícia, Bernal afirmou que efetuou dois disparos contra o fiscal, alegando ter agido após se sentir ameaçado. Segundo ele, Mazzini e outro homem teriam aberto o portão social do imóvel e tentavam acessar o interior da residência localizada na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande.
Já o chaveiro relatou, em depoimento prestado horas depois, que presenciou apenas um disparo enquanto ainda estava no local. Conforme documento da Polícia Civil, ele afirmou ter ficado abalado com a situação e disse não saber se outros tiros foram efetuados após sua saída. E que Bernal chegou com a arma em punho.
O depoente também descreveu que se afastou cautelosamente, temendo por sua vida, especialmente após receber ordem para se deitar no chão. Ao deixar o imóvel, acionou o filho, que é guarda municipal, para que a polícia fosse comunicada. O filho, segundo relato, havia sido inicialmente procurado pela vítima para realizar o serviço, mas repassou a demanda ao pai.
A arma entregue por Bernal, um revólver calibre 38, continha dois disparos deflagrados e três munições intactas. No corpo da vítima, no entanto, foram constatadas três perfurações. A perícia apontou que um dos tiros atravessou o tórax, enquanto outro atingiu a região da cintura.
Diante dessas inconsistências, investigadores trabalham com a hipótese de que um dos disparos possa ter sido efetuado quando a vítima já estava sem condições de reação, o que, se confirmado, enfraquece a alegação de legítima defesa.
Imagens de câmeras internas do imóvel podem ajudar a esclarecer a dinâmica dos fatos. Apesar de a defesa afirmar que os registros existem, o material ainda não havia sido anexado ao processo até a decisão judicial desta quarta-feira, que manteve Bernal preso.
Na decisão, o juiz destacou que não há, neste momento, prova inequívoca que sustente a excludente de ilicitude. O magistrado também ressaltou o depoimento da testemunha, que indicou ausência de reação por parte da vítima e apontou que o ex-prefeito já teria se aproximado com a arma em mãos.
Ainda conforme a decisão, o investigado poderia ter acionado as forças de segurança ao invés de ir armado ao local. Para o juiz, a conduta demonstra elevada gravidade, caracterizando crime doloso contra a vida.
A residência onde ocorreu o crime possui cerca de 680 metros quadrados de área construída em um terreno de aproximadamente 1,4 mil metros quadrados. O imóvel havia sido arrematado por Mazzini em leilão por cerca de R$ 2,4 milhões, e ele tentava tomar posse desde então.
Familiares da vítima informaram que o fiscal foi ao local após ser informado de que a casa estaria desocupada, motivo pelo qual acionou o chaveiro para viabilizar a entrada no imóvel adquirido em leilão.
Alcides Bernal tem trajetória política marcada por passagens como vereador, deputado estadual e prefeito de Campo Grande. Ele foi eleito chefe do Executivo municipal em 2012, mas teve o mandato cassado em 2014, retornando ao cargo apenas em 2015 por decisão judicial, permanecendo até o fim da gestão. Posteriormente, tentou a reeleição, mas não avançou ao segundo turno.

